Tempestade no mar, barcos em terra. Tem sido assim, pelo menos, nas últimas três semanas. Os temporais que têm varrido o continente desde o final de janeiro estão já a ter impacto na alimentação dos portugueses. Com várias barras marítimas fechadas ou condicionadas, as embarcações de pesca não podem sair para o mar. Nos mercados e supermercados de todo o país não falta peixe. Mas ou é de aquacultura ou foi pescado noutras águas. E é, por isso, mais caro. O setor fala em prejuízos “colossais” e diz que não há memória de um período tão longo de paragem.

Foi a 20 de janeiro, oito dias antes da depressão Kristin, que as embarcações saíram para o mar pela última vez, revela ao Observador Paulo Jorge Silva, presidente da Associação dos Armadores das Pescas Industriais (ADAPI). “Regra geral, os que estão em Aveiro, na Figueira da Foz, e mesmo os que estão em barras que não estiveram totalmente fechadas, não saíram porque o mau tempo era tanto…”.

As condições adversas afetam sobretudo as embarcações locais, por serem mais pequenas, mas, nas últimas semanas, também as costeiras, de maiores dimensões, ficaram encostadas. “Ou porque a barra estava mesmo fechada e a capitania daquele porto disse que era proibido sair ou, mesmo que não fosse proibido, o tempo era mau demais para navegar e lançar redes”, corrobora Luís Vicente, secretário-geral da mesma associação. Alguns, em zonas como Peniche e Nazaré, regressaram ao mar esta semana, apesar dos riscos. Esta quarta-feira ainda havia 12 barras fechadas, sobretudo nas zonas norte e centro, e uma condicionada, mas 34 estavam já abertas.

“O peixe fresco é, essencialmente, capturado pelas nossas embarcações aqui nas águas territoriais, com desembarque diário em lota. E as lotas estiveram praticamente sem funcionar durante três semanas. Só pontualmente funcionou a de Peniche. De resto, de norte a sul, com as barras fechadas, não houve atividade. Foram praticamente três semanas sem faturar”, resume Paulo Jorge Silva.

Os pescadores estão habituados a períodos de mau tempo todos os anos, constatam os responsáveis da associação dos armadores. Mas não têm memória de uma temporada tão difícil como o final de 2025 e o início de 2026. “Está a ser um período anormalmente longo de paragem. E é mais difícil para a pesca costeira, porque são embarcações maiores e raramente param. Não quer dizer que não tenham existido períodos comparáveis na pequena pesca, mas na costeira não me lembro de alguma vez termos visto um período de paragem consecutiva tão grande por causa do mau tempo”, vinca Luís Vicente.

Na pesca mais tradicional o sentimento é o mesmo. “Continua tudo parado”, diz Humberto Jorge, presidente da Associação das Organizações da Pesca (ANOP) do Cerco, um tipo de pesca local que utiliza redes para capturar peixe. “Não há memória nos anos mais recentes, neste século e no final do anterior, de uma sequência de temporais tão grande que obrigasse as embarcações a ficar em terra tanto tempo. Nem os mais antigos se lembram”.

Segundo Humberto Jorge, “grande parte da pesca tem sido fortemente atingida pelas intempéries, não só deste comboio de tempestades mas já desde o final de novembro. Há praticamente três meses que algumas embarcações estão altamente condicionadas na sua atividade, para algumas está completamente inviabilizada”. Pelas contas da ANOP Cerco, “a pesca costeira está com menos de 50% quer em volume de desembarques quer em volume de vendas” nas últimas semanas.

Com os armadores industriais em terra, fica em causa o abastecimento de todas as espécies que “os portugueses comem em fresco”, como carapaus, pescada, robalo, lulas, gambas ou lagostins. No caso da pesca de cerco, e não sendo época de apanhar sardinha, são também os carapaus, o biqueirão ou a cavala de águas nacionais que não estão a chegar à mesa dos portugueses. “O que não será afetado são espécies como o atum, o espadarte… não por os barcos estarem a trabalhar mas por terem ciclos de produção mais longos. Muitos saem para o Atlântico sul e não desembarcam todas as semanas”, explica Luís Vicente. Já o bacalhau não é afetado “porque a pesca tem ciclos de viagens de meses”. Já os preços, têm vindo a subir.

O peixe nacional que há será mais caro, pela lei da oferta e da procura. Portugal importa muito do seu peixe, não é uma coisa que imediatamente se torne drástica, mas o efeito vai sentir-se. Ainda para mais quando Espanha, que seria a principal alternativa, está a ter mais ou menos o mesmo problema com o tempo. Quem estará a beneficiar serão os importadores ou quem tivesse peixe congelado”, aponta Luís Vicente.

Uma consulta ao observatório de preços agroalimentar, a ferramenta do Ministério da Agricultura que monitoriza a evolução dos preços de alguns bens alimentares essenciais, permite concluir que o peixe tem vindo a aumentar de forma constante desde outubro do ano passado. No entanto, o observatório ainda só tem dados até ao final de dezembro de 2025. Nesse período, entre o início de outubro e o final de dezembro, um quilo de peixe passou de um preço médio de 8,80 euros no consumidor para 10,48 euros por quilo, uma subida de 19%. Ao longo de todo o ano passado, como é possível ver no gráfico, os preços mantiveram-se mais ou menos estáveis, e até desceram em junho. Alargando o período da consulta até 2019, o máximo que o observatório de preços permite, conclui-se que o preço do peixe, que regista sempre picos anuais em dezembro, nunca esteve tão elevado como agora.