Perto da barragem fica a aldeia de Travanca do Mondego. Com galos a cantar e ovelhas a pastar, a pacata aldeia tem uma pequena igreja, onde esta quinta-feira ao meio-dia Maria do Rosário Palma tratava de uma árvore. Questionada sobre a barragem, a mulher relata que “tem-na visto a descarregar”. “Mas é raro descarregar assim, é quando há estas cheias. É só em último caso é que se descarrega.”

O mau tempo ajuda a explicar as descargas com chuva intensa e persistente. “O tempo aqui tem estado horrível. É telhados pelo ar, é uma inquietação. Aqui cheias não é um problema, porque estamos numa altitude elevada, o vento é que me preocupa”, salienta Maria do Rosário Palma, natural dali, de Travanca do Mondego. “A chuva tem caído todos os dias. Ontem [quarta-feira] estava um tempo terrível. E amanhã [sexta-feira] já vem chuva outra vez. Desde o Ano Novo, tem sido para esquecer, chuva sem parar”, lamenta.

Esta situação tem sido transversal a toda a região Centro, fustigada pelas tempestades Kristin e Marta. A chuva persistente levou a que várias bacias hidrográficas em todo o país ficassem sob pressão hídrica, em particular a do Mondego. Na localidade do Chamadouro, no concelho de Santa Comba Dão, Esmeralda (que preferiu não revelar o apelido) tratava do pequeno quintal esta quinta-feira juntamente com o marido. Ainda não foi ver a barragem de Aguieira praticamente cheia: “Ainda há o risco de que me caia uma árvore em cima”.

Queixa-se também do mau tempo que se tem feito sentir na região. “Tem sido muito água. Já estou com a cabeça cheia do que se vê na televisão, com a barba dos outros a arder, e agora até eu fiquei com medo“, especialmente do temporal que se sentiu na zona no sábado à noite, durante a passagem da tempestade Marta. “É muito complicado. Até tive medo de ir ao quintal”, desabafa.

É a uma distância de nove quilómetros da barragem da Aguieira. Em meados dos 70, construiu-se o bairro da Nova Foz do Dão, para onde foram morar vários habitantes da aldeia submersa, quando começou a construção. Esta quinta-feira, na pequena localidade de Santa Comba Dão, reinava a tranquilidade apenas interrompida pelo barulho dos pássaros, cães e ovelhas. Raramente o som de um carro.

Na localidade, há vivendas grandes de variadas cores. Vários cães e gatos vagueiam pelas ruas. O Observador tentou encontrar na localidade quem morasse na Foz do Dão antes de ter ficado submersa; uma mulher até tinha vivido lá, mas não quis partilhar as memórias por estar doente. Maria Alice, de 93 anos, nunca morou na aldeia agora debaixo de água. Viveu em Angola até 1975, de onde veio, como afirma, “com uma mão atrás e à frente”.

Chegou apenas à Nova Foz do Dão após o 25 de Abril juntamente com o marido e os filhos, numa altura em que a barragem da Aguieira já estava a ser construída. “Nessa época, já havia gente a viver aqui que tinha vindo da Foz do Dão, mas não eram todos. Uns só chegaram depois”, recorda a mulher desde a varanda da sua moradia, com um grande terreno onde corria um gato branco.

As lembranças dos outrora habitantes da Foz do Dão têm-se vindo a desvanecer. Muitos daqueles que viveram na aldeia submersa ou adoeceram ou acabaram por morrer. Para Jaime Vitorino e os filhos, mesmo que nunca tenham vivido na localidade, é importante manter viva a memória de Foz do Dão.

Com 47 anos, e gerente do restaurante A Lampreia, Pedro Vitorino explica ao Observador que muitas pessoas tiveram de ir viver para outros sítios, especialmente para Nova Foz do Dão. “O meu avô foi o único que não quis e quis fazer uma casa aqui”, sublinha, aludindo à localidade de Chamadouro, ponto de passagem da Estrada Nacional 2. “A Nova Foz do Dão é um bairro que foi criado para as pessoas que saíram da Foz do Dão. Há algumas pessoas, pelo que sei e que não são da minha geração, que até já acabaram por sair de barco”, narra.

“Há muitos poucos moradores ainda vivos”, prossegue Pedro Vitorino, que ainda tem um “avô de 92 anos vivo” que viveu na original Foz do Dão. Quando as águas estão mais baixas, principalmente durante os meses de verão, ainda se vê parte da ilha. “Havia dois cemitérios, um mais antigo e um mais novo. O mais novo é o que aparece quando a barragem está mais baixa. Aliás, esta semana já se viu duas ou três vezes, mas a barragem está com uma amplitude muito grande: tanto desce como sobe.”

No escritório do restaurante, há várias fotografias de como era a Foz do Dão. Pedro Vitorino até tem um drone e tirou fotografias da parte da ilha que fica a descoberto. “Esta aldeia hoje, se estivesse habitável e se não existisse a barragem, quase de certeza absoluta que era o maior ponto turístico da cidade de Santa Comba Dão”, considera o homem de 47 anos.