O Parque Urbano da Várzea, em Setúbal, foi por estes dias posto à prova e passou com distinção, evitando que as zonas urbanas ficassem debaixo de água. É um projecto estruturante na resposta aos impactos das alterações climáticas, que conjuga soluções de engenharia hidráulica com a criação de uma ampla infra-estrutura verde. Mais do que um espaço de lazer, o parque é um refúgio climático e, em tempos de cheias, uma muralha de defesa da cidade.
Situada numa planície, Setúbal sempre foi uma região propícia a cheias, sobretudo na baixa da cidade, historicamente afectada por inundações recorrentes. Ao mesmo tempo, o agravamento das alterações climáticas tem vindo a traduzir-se no aumento da temperatura média anual e numa tendência para menos precipitação ao longo do ano, mas mais intensa e concentrada em curtos períodos, o que exige sistemas de drenagem urbana mais eficazes.
Foi neste contexto que o município avançou com um ambicioso projecto de adaptação às alterações climáticas. Idealizada há uma década, durante a primeira série de mandatos da actual presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, a obra contou com um investimento superior a três milhões de euros apoiado por programas de financiamento da União Europeia (UE), nomeadamente o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR), o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e o Portugal 2020.
A intervenção teve como peça central a construção da bacia de retenção da ribeira do Livramento, com capacidade para armazenar até 240.000m3 de água, o equivalente a 100 piscinas olímpicas. Subdividida em duas áreas — a maior na margem esquerda (229.000m3) e a menor na margem direita (11.0003³) — a bacia integra descarregadores laterais, descargas pluviais estratégicas e uma câmara de esvaziamento que permite libertar a água de forma contínua, automática e controlada para a rede de drenagem, evitando a sobrecarga do sistema urbano mesmo em situações de maré cheia. Em conjunto com a estrutura instalada na zona da Algodeia e outras intervenções complementares, assegura uma capacidade global de retenção próxima dos 300.000m3.
Os recentes episódios de chuva intensa constituíram o “primeiro grande teste” à infra-estrutura. Segundo Paulo Maia, vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Setúbal, a bacia de retenção do Parque Urbano da Várzea revelou-se “decisiva na protecção da cidade”, funcionando de forma “plenamente eficaz e conforme o previsto no seu projecto”, ao proteger os bairros históricos e o comércio da baixa.
Apesar dos níveis “excepcionalmente elevados” de pluviosidade registados, entre os 22 e 25mm/h, a bacia encontra-se a “apenas cerca de 30% da sua capacidade, o que demonstra a robustez, dimensão e margem de segurança da infra-estrutura”, explica o vereador. Acrescenta ainda que, ao contrário de concelhos vizinhos, como Alcácer do Sal, Setúbal “deixou de registar episódios de cheias urbanas” desde a entrada em funcionamento da bacia, em 2018.
Com uma área de intervenção de 14 hectares, o Parque Urbano da Várzea vai além da sua função hidráulica. O projecto incluiu a plantação de cerca de 1290 árvores de espécies autóctones, contribuindo para a prevenção da erosão do solo e para o combate ao efeito de “ilha de calor urbano”. Foram ainda construídos dois furos geodésicos para garantir o abastecimento de água ao parque e criados caminhos pedonais para permitir o usufruto do espaço.
A intervenção assegurou também a manutenção e futura preservação de elementos patrimoniais relevantes, como o aqueduto da Quinta de Prostes, tanques de rega, poços, alguns troços de caleiras e os três edifícios existentes na área.
Paralelamente, foi implementado um programa de sensibilização ambiental, com actividades que envolvem alunos das escolas locais e promovem a educação para a sustentabilidade. O espaço tornou-se, assim, um pólo de educação ambiental e de promoção da biodiversidade.
“Esta é uma obra fantástica”, afirma Paulo Maia, assegurando que, apesar do balanço positivo até ao momento, o projecto não termina por aqui. A câmara continuará a “investir neste espaço, reforçando equipamentos e actividades”. Entre as intervenções previstas, destacam-se a criação de um sistema de rega automatizada, a plantação de mais espécies arbóreas e arbustivas autóctones e o aumento das áreas de prado e relvado, em consonância com o projecto paisagístico.
Em Lisboa, no âmbito do Plano Geral de Drenagem, também estão a ser construídas bacias de retenção, bem como túneis de drenagem para transvase destas bacias, num esforço semelhante de adaptação urbana às novas exigências climáticas.
Texto editado por Ana Fernandes