As prateleiras dos supermercados de todo o mundo possuem grandes quantidades de alimentos ultraprocessados e repletos de conservantesFoto: Freepik/ND Mais
Conservantes alimentares novamente estão no centro das discussões sobre saúde pública após a publicação recentemente de dois grandes estudos científicos em revistas de alto impacto internacional.
As pesquisas associam o consumo frequente dos conservantes alimentares a um maior risco de câncer e diabetes tipo 2, especialmente quando presentes em alimentos ultraprocessados.
Os trabalhos foram conduzidos a partir do NutriNet-Santé, um dos maiores estudos nutricionais do mundo, que acompanha mais de 170 mil pessoas desde 2009.
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Embora os autores reforcem que os dados ainda precisam ser confirmados por novas pesquisas, os resultados dialogam diretamente com o que instituições brasileiras vêm alertando há anos: quanto mais natural a alimentação, menor o risco de doenças crônicas.
O que os estudos sobre conservantes alimentares observaram
Os pesquisadores analisaram o consumo de 58 tipos de conservantes alimentares e cruzaram os dados com diagnósticos médicos ao longo de até 14 anos. Alguns desses aditivos são amplamente utilizados e considerados “seguros” por órgãos reguladores, como o nitrito de sódio, os sorbatos, acetatos e sulfitos.
Mesmo assim, parte deles apresentou associação estatística com o aumento de risco de doenças.
Entre os principais achados:
- Nitrito de sódio, comum em carnes processadas como bacon, presunto e salsicha, foi associado a um aumento de 32% no risco de câncer de próstata.
- Nitrato de potássio esteve ligado a maior risco de câncer de mama e de câncer em geral.
- Sorbato de potássio, usado em queijos, pães, vinhos e molhos, apareceu relacionado ao aumento de câncer de mama.
- Metabissulfito de potássio, presente em bebidas alcoólicas e conservas, também foi associado a maior risco oncológico.
No segundo estudo sobre conservantes alimentares, que analisou a diabetes tipo 2, os dados chamaram ainda mais atenção: pessoas com maior consumo de determinados conservantes apresentaram até 49% mais risco de desenvolver a doença.
O que os estudos sobre conservantes alimentares têm a ver com o Brasil?
Embora os estudos sobre conservantes alimentares tenham sido realizados na França, os resultados ecoam fortemente no contexto brasileiro. O Brasil está entre os países que mais consomem alimentos ultraprocessados, segundo dados da Fiocruz e do IBGE.
Nitrito de sódio é um conservante associado a casos de câncer de próstata Foto: Imagem gerada com AI/ND Mais
Pesquisadores da USP, da Unicamp e da Fiocruz já demonstraram, em diferentes estudos, que o alto consumo desses produtos está associado a:
- Obesidade;
- Doenças cardiovasculares;
- Diabetes tipo 2;
- Maior risco de alguns tipos de câncer.
O INCA (Instituto Nacional de Câncer), inclusive, recomenda reduzir drasticamente o consumo de carnes processadas e alimentos industrializados ricos em aditivos químicos, reforçando que eles devem ser evitados no dia a dia, não apenas consumidos com moderação.
Problema não está só nos conservantes alimentares
Um ponto central destacado pelos pesquisadores franceses é que o problema não está apenas na substância isolada, mas na forma como ela é consumida.
“Ao retirar um composto da sua matriz natural, como uma fruta ou vegetal inteiro, o efeito sobre o organismo pode ser completamente diferente”, explica a epidemiologista nutricional Mathilde Touvier, coordenadora do estudo.
Esse raciocínio é o mesmo defendido pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, que prioriza alimentos in natura ou minimamente processados e desestimula o consumo de produtos com longas listas de ingredientes.
Nem todos os conservantes alimentares são vilões, mas o excesso preocupa
Os pesquisadores alertam que os estudos são observacionais, ou seja, não comprovam causa direta. Ainda assim, o rigor metodológico, o acompanhamento de longo prazo e o controle de fatores como atividade física, tabagismo e consumo de álcool tornam os achados relevantes.
“Esses resultados reforçam a necessidade de cautela e de mais pesquisas, mas também fortalecem uma mensagem que já conhecemos: comer comida de verdade é uma decisão de saúde”, resume o médico David Katz, especialista em medicina preventiva.
Na prática, os especialistas recomendam:
- Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados;
- ler rótulos com atenção;
- evitar produtos com muitos aditivos, especialmente carnes processadas, refrigerantes, embutidos e alimentos prontos;
- priorizar alimentos frescos, preparações caseiras e produtos locais.
Como já defendem pesquisadores brasileiros, a prevenção começa no prato — e escolhas cotidianas fazem diferença a longo prazo.