É muito comum Hollywood se apropriar de produções de outros países, frequentemente fazendo sua própria versão dessas histórias. O resultado acaba sendo filmes que se tornam muito mais conhecidos do que a obra de origem. Portanto, não deixa de ser curioso e interessante que o Brasil tenha conseguido a façanha de adaptar “O Quarto do Pânico” (2002), um dos filmes mais subestimados do aclamado diretor David Fincher (e particularmente meu favorito). Para a direção, é convocada Gabriela Amaral Almeida, que já se mostrou muito competente em trabalhar suspense (detesto a expressão “cinema de gênero”) no seu ótimo longa “O Animal Cordial” (2017).
Quem já assistiu ao longa anterior já conhece a história: uma mulher e sua filha se mudam para uma casa luxuosa e sofisticada em termos de segurança. Isso, entretanto, não impede o local de ser invadido por um trio de assaltantes. Resta apenas se esconder no chamado “quarto do pânico”, um cômodo da casa altamente blindado feito para ocasiões de emergência.
A casa, que é um personagem por si só, é sempre filmada com poucas fontes de luz, exibindo uma atmosfera que traz mistério e perigo para a opulência da mesma. Da mesma forma que no longa original, aqui a ação é direta e sem rodeios; o fluxo é orgânico e sempre interessante; o suspense, crescente; os personagens, cativantes. Ísis Valverde consegue transmitir a amabilidade e a vulnerabilidade de sua personagem, totalmente à mercê de homens estranhos, porém é difícil se equiparar à formidável interpretação de Jodie Foster no filme clássico.
E sim, comparações são completamente inevitáveis. Quem ainda não viu o original, pode ter uma experiência muito satisfatória, pelo frescor de ver uma história inédita. Mas quem já assistiu ao filme de Fincher, sempre vai se perceber sendo remetido a ele, até porque o remake se vale do mesmo enredo, das mesmas situações, dos mesmos personagens, muitas vezes até de planos e diálogos iguais ou com diferenças sutis, com as mesmas ideias essenciais do clássico. Com um elenco competente, O Quarto do Pânico se encontra na posição ingrata de recontar uma história que já foi contada antes com a maestria da direção de Fincher e roteiro de David Koepp.
Algumas diferenças pontuais no roteiro de Fabio Mendes tentam dar ao longa uma identidade própria, nada, porém, que se destaque em relação ao original. Se a casa foi comprada pelo ex-marido ainda vivo da protagonista no filme de 20 anos atrás, aqui, O Quarto do Pânico busca trazer o contexto da violência urbana com a personagem de Valverde traumatizada pela morte trágica do esposo. O desenrolar da trama, entretanto, não explora a paranoia de Mari situada brevemente em um diálogo da filha sobre a obsessão da mãe com segurança. O estado interno da personagem de Jodie Foster era importante para impulsionar a trama, já que a melancolia por causa do divórcio recente é o que a faz negligente na hora de acionar a linha telefônica do quarto do pânico. Sendo assim, ela é simbolicamente abandonada à própria maternidade, e depois, à própria sorte, tornando-se vítima de toda uma estrutura social masculina. Nesta versão, isso fica reduzido apenas à invasão em si.
Quanto aos vilões, o plot twist em relação ao líder do assalto interpretado por Marco Pigossi: a nova versão busca mesclar as personagens de Jared Leto e Dwight Yoakam. Até funciona pela composição excêntrica e imprevisível do ator brasileiro, mas, é impossível não questionar a maneira fácil de como ele consegue tomar a arma da mão do colega mais experiente do que ele. Já o criminoso vivido por André Ramiro convence, ainda que longe de acrescentar algo ao que tínhamos visto em Forest Whitaker no longa original. O diálogo entre ele e a filha da protagonista não carrega o mesmo impacto aqui, apesar de ter a mesma singeleza. É interessante a abordagem deste como sendo aparentemente o mais mal-encarado dos dois bandidos principais, para depois revelar sua maior empatia. Também é envolvente o final que o emancipa, trazendo um interessante jogo cênico dramático. Mesmo assim, parece um pouco pálido diante do original, onde se tem uma ironia trágica em relação a ele que abrilhanta a conclusão da trama.
Os mais de 20 anos que separam as duas versões tornam as mudanças tecnológicas elementos inevitavelmente importantes. A casa brasileira é mais moderna e clean, porém, visualmente menos marcante. Da mesma forma, apesar do aparato dos assaltantes ser mais moderno, O Quarto do Pânico nunca chega a explorar todas as possibilidades como aplicativos de smartphone, GPS, sistemas de drones sendo trabalhados.
No geral, o apego excessivo ao clássico impede o filme de encontrar suas próprias resoluções, e mesmo as poucas diferenças criativas não conseguem agregar nada de substancial à história do longa, nem distanciá-lo da sombra de seu antecessor, sendo bastante tímido nesse aspecto. Falta algo mais tipicamente brasileiro nessa versão que se justifique, o que acaba levando-a a ser mais um remake do que uma adaptação para o contexto do nosso país, não conseguindo extrair nada de inédito do caráter universal da história. Mesmo assim, “Quarto do Pânico” é um exercício instigante e um entretenimento bastante atraente que vai ficar na cabeça dos espectadores após a sessão.


