O Museu Britânico retirou a palavra Palestina de alguns materiais expositivos, nomeadamente de mapas que identificavam a costa leste do mar Mediterrâneo e os povos que lá viviam como “Palestina” e “de ascendência palestiniana”, respectivamente. No início do mês, o grupo de lobbying UK Lawyers for Israel (UKlif) assumiu estar a pressionar a instituição para corrigir aquilo que seria, no entender desta organização, um “uso historicamente impreciso” do termo. As alterações entretanto implementadas suscitaram já uma petição pública com milhares de signatários.
Os textos expositivos e painéis informativos em causa estão na ala dedicada à História do Médio Oriente e dos territórios do antigo Levante e do Egipto entre 1795 e 332 a.C. A referência ao termo “Palestina” nesses materiais históricos é, para o UKlif, “anacrónica”, como consta da carta enviada ao director do Museu Britânico, Nicholas Cullinan. “O uso repetido do termo ‘Palestina’ para descrever a região que hoje compreende Israel e as áreas adjacentes durante períodos históricos em que este nome não existia distorce o registo histórico e obscurece a História de Israel e do povo judeu”, argumenta o grupo. “A UKlif defende que a aplicação retroactiva do nome ‘Palestina’ [abrangendo uma sequência] de milhares de anos cria uma falsa impressão de continuidade histórica e apaga o surgimento e a existência de reinos judaicos e da identidade nacional judaica na região.”
Outros textos, como aqueles que se referem a David, por exemplo, descrevem-no como originário da Palestina, atribuição que o grupo pró-israelita contraria, considerando que as suas raízes são “o reino de Israel e a Judeia”. O UKlif cita fontes que indicam que o primeiro uso conhecido do nome “Palestina” data do quinto século antes de Cristo, quando Heródoto (c. 485 a.C-c. 425 a.C.) descreveu uma faixa costeira do Mediterrâneo habitada pelos filisteus. O texto clássico refere-se à região que equivale grosso modo aos actuais territórios de Israel e da Palestina, classificando os seus habitantes com sírios/fenícios da Palestina.
A Enciclopédia Britânica indica que há três milénios que o termo tem vindo a ser usado para identificar uma região com fronteiras variáveis e diferentes estatutos políticos. A atribuição a Heródoto da primeira aparição da palavra não é unânime, uma vez que, segundo outras fontes, há inscrições e hieróglifos possivelmente referentes à Palestina (“Peleset”) ou a uma parte do território hoje em contenda que remontam à Vigésima Dinastia do Antigo Egipto (1189-1077 a.C.).
O Museu Britânico informou, citado pelo diário britânico The Guardian, que as alterações da sinalética museológica foram feitas em 2025, na sequência de reacções dos visitantes e de uma actualização da investigação sobre o período em causa. Segundo o diário escocês The National, o museu nega ter feito estas mudanças sob pressão do UKLfi. A instituição considera que o nome Palestina deixou de ser “neutro” e que a sua utilização pode ser lida como reconhecimento de um território político. Em Setembro passado, e assim como outros países, incluindo Portugal, o Reino Unido reconheceu oficialmente o Estado da Palestina.
“Para as galerias do Médio Oriente, e no que diz respeito aos mapas que identificam antigas regiões culturais, o termo ‘Canaã’ é apropriado para [designar] o Sul do Levante no final do segundo milénio a.C.”, explicou um porta-voz do museu àquele jornal. O UKlif reclamava precisamente que as regiões cuja nomenclatura considerava problemática fossem renomeadas, sugerindo designações como Canaã, reino de Israel ou Judeia.
“Utilizamos a terminologia da ONU em mapas que mostram fronteiras modernas, por exemplo, Gaza, Cisjordânia, Israel, Jordânia, e referimo-nos a ‘palestiniano’ como um identificador cultural ou etnográfico quando apropriado”, afirmou ainda o porta-voz do museu.
O Museu Britânico está em obras nalgumas alas e segundo o Guardian haverá mais mudanças nos materiais expositivos nos próximos anos. Um painel informativo nas galerias dedicadas ao Antigo Egipto fala agora de “ascendência canaanita” e não, como antes, de “ascendência palestiniana”.
Entretanto, uma petição no site Change.org, intitulada “Apagar uma palavra apaga um povo: Reinstaurar a Palestina no Museu Britânico”, já foi assinada, até à hora de publicação desta notícia, por mais de sete mil pessoas que contestam as referências históricas usadas para proceder à substituição do termo Palestina. A medida “não é apoiada por provas históricas e contribui para um padrão mais amplo de apagamento da presença palestiniana da memória pública”, alegam os subscritores.
A petição socorre-se do supracitado texto de Heródoto e cita o Otelo, de William Shakespeare, para apontar o dedo àquela que é uma das mais importantes instituições culturais do Reino Unido: “Se o Museu Britânico está genuinamente preocupado com a etimologia, então a coerência exigiria um escrutínio semelhante de termos como ‘Grã-Bretanha’, que é em si uma construção política relativamente moderna. No entanto, o termo ‘Grã-Bretanha’ permanece incontestado nas galerias do museu.”
“Esta remoção selectiva sugere inconsistência nos padrões curatoriais e levanta preocupações sobre a influência da pressão política na apresentação histórica”, diz a petição, que pede que sejam repostas as referências à Palestina onde adequado e que o Museu Britânico descreva com transparência o processo de decisão interno que esteve na base das recentes alterações terminológicas.