“Continuam a chegar-nos registos de papagaios-do-mar que deram à costa mortos, na sequência das tempestades das últimas semanas: são já mais de 1000 casos contabilizados — o número real é provavelmente muito maior”, alerta a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), numa publicação feita nas suas redes sociais.
Os concelhos com mais arrojamentos registados são Peniche e Póvoa do Varzim, adiantam. Muitos arrojamentos também foram registados em Vagos, Mira, Esposende e Vila Nova de Gaia. Todos os cidadãos são chamados para ajudar a contabilizar este fenómeno.
Há menos de uma semana a SPEA lançou o primeiro alerta. Eram já mais de 400 papagaios-do-mar mortos encontrados em várias praias de Portugal. Nessa altura, a SPEA BirdLife, que está monitorizar estes arrojamentos, já avisava que o número real de aves vítimas do mau tempo devia ser bastante mais elevado. Poucos dias depois, já são mais de mil.
Há mais registos nos norte, mas os arrojamentos estão a ser registados em toda a costa portuguesa
SPEA
Segundo o mapa de ocorrências divulgado pela SPEA, o maior número de aves mortas está sinalizado na costa Norte, mas o fenómeno estende-se por toda a costa portuguesa, e também nos Açores. E não se limitam aos papagaios-do-mar: incluem também gaivotas e alcatrazes, por exemplo.
“No caso dos papagaios-do-mar, se as aves tiverem dificuldade em alimentar-se durante períodos prolongados, podem ver a sua condição física deteriorar-se, acabando por arrojar já muito exaustos e com fraca condição física. Por isso, muitos acabam por morrer, mesmo depois de resgatados, pois já estão muito fracos” explicava Hany Alonso, técnico sénior de Ciência na SPEA, num comunicado de imprensa divulgado na passada quinta-feira.
SPEA/ Sónia Passos
“Estas situações tenderão, provavelmente, a tornar-se mais frequentes na costa portuguesa, com as alterações climáticas a causar cada vez mais tempestades”.
Nos dois alertas feitos com um intervalo breve de poucos dias, repete-se o mesmo apelo à população. A SPEA apela a que os cidadãos registem as aves que virem arrojadas na plataforma ICAO (disponível online e como app) que é um programa de monitorização iniciado pelo Grupo de Trabalho com Aves Marinhas (GTAM) da SEO/BirdLife na década de 1980. O programa “serve como uma ferramenta para avaliar o estado ambiental dos oceanos, bem como para detectar e compreender as diferentes causas de mortalidade que afectam as aves marinhas, mas também mamíferos, tartarugas e outra fauna marinha”.
A ajuda dos cidadãos pode fornecer “dados valiosos que nos ajudam a identificar as espécies afectadas, estimar números e perceber qual o impacto nas populações”, explica a SPEA.
O fenómeno não é inédito. No Inverno de 2022/23, Portugal contabilizou mais de 1700 papagaios-do-mar arrojados na costa em apenas duas semanas, também na sequência de tempestades que impedem estas aves de se alimentar, com vento e marés fortes que acabam por as derrotar e as levar, mortas, até aos areais. Em Dezembro de 2022 e Janeiro de 2023, várias dezenas de tordas-mergulheiras e papagaios-do-mar, aves que frequentam a nossa costa no Inverno, também apareceram mortos nos areais.