O mundo da inteligência artificial (IA) está a mudar de forma a uma velocidade desconcertante. Já não basta “conversar” com uma máquina; começa a exigir-se que ela aja por nós — que marque viagens, verifique o correio electrónico, organize agendas ou compre bilhetes. O OpenClaw é o rosto mais recente desta mudança, e a sua história começa, como tantas das mais interessantes em tecnologia, com uma pessoa a trabalhar sozinha numa ideia improvável.

O OpenClaw não é um site onde se faz login, como o ChatGPT, nem uma app que se descarrega para o smartphone. Trata-se de um assistente pessoal de IA, de código aberto, que corre localmente no computador do utilizador e é controlado através de aplicações de mensagens já usadas no quotidiano, como WhatsApp, Telegram, Discord ou Signal. Em vez de abrir um programa dedicado, basta enviar uma mensagem a pedir que a máquina execute uma tarefa.

O projecto foi criado pelo programador austríaco Peter Steinberger, fundador da empresa de software PSPDFKit. A ideia nasceu de uma pergunta simples: porque não existir um agente capaz de supervisionar outros agentes de IA? A resposta tomou forma em código, publicado em Novembro de 2025 com o nome Clawdbot, numa referência directa ao Claude, o modelo de linguagem da Anthropic. Questões relacionadas com marcas registadas levaram a uma mudança de nome para Moltbot e, mais tarde, em Janeiro de 2026, para OpenClaw. A mascote do projecto, uma lagosta, sobreviveu a todas as alterações.

A popularidade foi quase imediata. Em poucas semanas, o repositório acumulou mais de uma centena de milhares de estrelas no GitHub, um número pouco comum no universo do software de código aberto. Em Fevereiro de 2026, Steinberger anunciou que iria juntar-se à OpenAI, ficando o OpenClaw sob a alçada de uma fundação independente dedicada ao desenvolvimento e à gestão do projecto.

Como funciona?

A instalação do OpenClaw não é, pelo menos para já, acessível a todos. Exige algum domínio técnico, nomeadamente a capacidade de trabalhar com linhas de comando, configurar o ambiente de execução e ligar o agente a um modelo de linguagem externo, como o GPT, Claude ou DeepSeek. Os próprios responsáveis pelo projecto têm alertado que quem não compreender minimamente o que está a fazer corre riscos desnecessários.

Depois de configurado, o OpenClaw passa a funcionar como um intermediário permanente entre o utilizador e o seu computador. Tem capacidade para ler e escrever ficheiros, navegar na Internet, gerir calendários, enviar e apagar mensagens de correio electrónico, fazer reservas de viagens ou resumir documentos. Tudo isto é feito de forma autónoma, a partir de instruções em linguagem natural, como se o utilizador estivesse a falar com um assistente humano.

O sistema mantém um histórico das interacções e aprende progressivamente os hábitos do utilizador, o que lhe permite personalizar respostas e antecipar necessidades. Em princípio, toda a informação fica armazenada localmente no computador, e não em servidores externos controlados por terceiros.

Porque é que o código aberto importa?

Ao contrário de soluções proprietárias como o Copilot, da Microsoft, ou as funcionalidades do Apple Intelligence, da Apple, o OpenClaw não está preso a um ecossistema fechado, não exige subscrições obrigatórias e permite que qualquer pessoa com conhecimentos técnicos examine o código e perceba exactamente o que o software faz com os dados do utilizador. É um argumento central para quem defende a chamada soberania digital.

O agente é independente da plataforma de IA que o alimenta e pode ser adaptado a necessidades muito específicas, seja em contexto pessoal, empresarial ou de investigação. O software em si é gratuito, ficando a cargo do utilizador apenas o custo associado ao modelo de linguagem escolhido.


Mas há riscos reais a considerar?

Dar a um programa acesso ao correio electrónico, aos ficheiros pessoais, ao calendário e à capacidade de executar comandos no sistema operativo não é uma decisão trivial. As empresas de cibersegurança têm acompanhado de perto a evolução do OpenClaw e os alertas multiplicam-se.

A Cisco analisou uma extensão de terceiros associada ao projecto e identificou comportamentos de extracção de dados e ataques. A CrowdStrike detectou tentativas de manipulação do agente através de conteúdos maliciosos com o objectivo de esvaziar carteiras de criptomoedas. Já a Palo Alto Networks descreveu o fenómeno como uma “tríade letal”, combinando acesso a dados privados, exposição a informação não verificada e capacidade de execução autónoma de acções.

O consenso entre especialistas é relativamente simples: o OpenClaw deve ser tratado como se fosse um novo funcionário. Deve-lhe ser concedido apenas o mínimo de permissões necessárias, com regras claras e supervisão constante, pelo menos numa fase inicial.

O OpenClaw é um sinal claro de uma mudança mais profunda na forma como nos relacionamos com a tecnologia. O desafio imediato é garantir que a autonomia que lhes é concedida não se transforma num problema maior do que as tarefas que prometem resolver.