A Microsoft viu-se recentemente envolvida numa polémica inesperada ao retirar um guia técnico do blogue oficial da empresa. O artigo em causa, publicado originalmente em 2024, detalhava como utilizar a colecção completa dos livros de Harry Potter para treinar e ajustar modelos de inteligência artificial.
O problema central não reside na tecnologia demonstrada — uma integração da ferramenta LangChain com o serviço Azure SQL — mas sim na escolha do conjunto de dados sugerido. O tutorial descrevia o carregamento de ficheiros de texto contendo a obra integral da autora britânica J.K. Rowling, naturalmente protegida por direitos de autor, a partir de um serviço de armazenamento na nuvem.
Contradições internas
O deslize é particularmente irónico quando se recorda que a própria Microsoft Research publicou, no passado, estudos científicos sobre como fazer com que os modelos de linguagem “esquecessem” o universo de Harry Potter, precisamente para evitar violações de propriedade intelectual. Esta contradição interna entre diferentes departamentos sugere uma falha nos processos de revisão de conteúdos técnicos da tecnológica com sede Redmond (nos arredores de Seattle, EUA).
A remoção do guia aconteceu menos de 24 horas após o assunto se tornar viral no agregador Hacker News. Especialistas do sector apontam que este incidente pode fragilizar a posição da Microsoft em tribunal. Recorde-se que a empresa enfrenta processos judiciais onde diversos autores exigem indemnizações que podem chegar aos 150 mil dólares (cerca de 138 mil euros) por cada obra utilizada sem autorização expressa em treinos de inteligência artificial.
Embora a Microsoft tenha agido com celeridade para apagar o rasto do artigo, a situação reabre o debate sobre a ética na recolha de informação para a nova vaga tecnológica. Para os criadores de conteúdos, este episódio serve como prova de que as grandes tecnológicas terão mantido uma atitude demasiado permissiva com a pirataria durante a fase de desenvolvimento dos modelos actuais.
Até ao momento, a empresa não emitiu um comunicado oficial sobre as razões que levaram à escolha deste exemplo específico para o tutorial, limitando-se a desactivar as ligações que permitiam aceder ao texto original.