Há dois dias tudo parecia correr na perfeição nos escritórios da NASA. Depois de um primeiro exame chumbado, o segundo foi um sucesso. Mas a exploração espacial reserva sempre surpresas – a agência espacial norte-americana que o diga. Este fim-de-semana, numa acção de rotina com o foguetão que levará humanos de volta à Lua foi descoberta uma falha no fluxo de hélio no veículo. O foguetão Space Launch System (SLS) regressará agora à garagem para novas reparações. A descolagem da missão Ártemis II fica adiada mais um mês.
Na sexta-feira, o ensaio geral correu bem. Depois de um primeiro exame onde foram detectadas fugas de hidrogénio (um dos combustíveis) no foguetão SLS, as rectificações foram cumpridas e não houve qualquer falha no segundo exame. Lori Glaze, directora-adjunta do Centro Espacial Goddard (Estados Unidos), indicava já o horizonte para a descolagem: 6 de Março ao cair da noite no horário de Portugal continental.
O ensaio geral (ou wet dress rehearsal, na expressão inglesa) permite testar e simular todos os sistemas na plataforma de lançamento e no foguetão. Este exame à fiabilidade do foguetão Space Launch System (SLS) reproduz todo o processo até aos 29 segundos antes da descolagem, ou seja, até à ignição dos motores. É aqui que se descobrem os problemas remediáveis, como fugas de combustível – que já tinham atrasado por um par de vezes a primeira missão do programa Ártemis. Só que além deste exame fulcral, há ainda análises aprofundadas aos dados recolhidos durante este processo e trabalhos rotineiros para garantir que o foguetão está pronto a ser lançado e a encaminhar a cápsula Órion em direcção à Lua.
Foi numa acção de rotina, no sábado, que se verificou um novo imprevisto. O problema foi identificado também no sistema de propulsão do andar superior, onde o fluxo de hélio estava cortado. O hélio é fundamental para manter os motores funcionais e também para manter a pressão nos tanques de hidrogénio e oxigénio líquidos (dois combustíveis para o foguetão). “Os sistemas funcionaram durante o ensaio geral da Ártemis II, mas as equipas [de engenheiros] não conseguiram fazer correr hélio adequadamente durante as operações normais e reconfigurações depois do ensaio geral”, explica a NASA em comunicado. Estas operações normais são testes diários para garantir o funcionamento das operações.
Avança Abril
A razão desta falha não está ainda descortinada. “Independentemente da possível falha, o acesso e a resolução do problema só podem ser realizados no Edifício de Montagem de Veículos”, escreveu Jared Isaacman, administrador da NASA no X. O foguetão terá, assim, de voltar à garagem.
“Isto fará com que a janela de lançamento de Março seja descartada”, acrescentou Jared Isaacman.
Sem a hipótese de Março, a missão Ártemis II terá opção de descolar nos primeiros dias de Abril, mais concretamente a 1, 3, 4, 5 ou 6 de Abril. A próxima data disponível é 30 de Abril. Se tal não der, avança-se mais um mês.
As missões do programa espacial Ártemis (que conta com o apoio da Europa, Canadá e Japão) têm sido atrasadas sempre com problemas associados ao combustível, como as fugas de combustível que em 2022 abortaram as primeiras duas descolagens na Ártemis I.
A Ártemis II marcará o regresso dos humanos à Lua, embora apenas para dançarem à volta do satélite natural da Terra, a cerca de 10.000 quilómetros do lado mais distante da Lua (da perspectiva da Terra), numa viagem que durará dez dias. Será a prequela do retorno ao solo lunar – previsto para 2027 ou 2028 na Ártemis III.