“Se o adolescente tem os medicamentos disponíveis no quarto, facilmente parte para uma atitude impulsiva”, alertou a coordenadora da Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria, Erica Torres, em declarações à Agência Lusa. Para a médica, é preciso ter uma maior atenção à “dispensa de fármacos a menores nas farmácias”, bem como à presença dos adolescentes e crianças nas redes sociais. “Se não deixamos os nossos filhos andar sozinhos na rua, também não os podemos deixar sozinhos na internet”, defendeu.

Nuno Jacinto, o presidente da Associação de Médicos de Medicina Geral e Familiar, revela ao Observador que acredita que a solução deste problema não passa pelo aumento das restrições no acesso a este tipo de medicações. “Na esmagadora maioria dos casos, também já não será fácil a farmácia dispensar medicamentos a menores“, admite, sublinhando que o paracetamol é “um medicamento seguro, extremamente útil em múltiplas situações, que a grande maioria da população está habituada a usar nestas situações de doença ligeira, nomeadamente febre, dor, que usa com segurança e é bom que tenha este acesso que tem hoje em dia”.

Para o médico, o importante é “passar mensagens claras de educação para a saúde, de transmitir que, como qualquer outro medicamento, o paracetamol tem uma dose indicada, uma dose segura máxima, e que tudo o que for feito a partir daí está a ser feito contra aquelas que são as indicações, contra aquilo que foi testado”. A aposta, segundo Nuno Jacinto, deverá ser na literacia de saúde, apontando para a reduzida adesão do desafio em Portugal, referindo que qualquer alteração no acesso a esta medicação iria “prejudicar todos os outros e sobrecarregar o sistema de saúde”.

Já a psicóloga Bárbara Ramos Dias defende que a solução está em casa. “Acredito que é preciso mais apoio e presença dos pais. Ouvir, até mais do que presença, porque podem estar pouco tempo, mas ouvir”, reforça a profissional. “Os miúdos queixam-se muito de que os pais não os ouvem. E os miúdos precisam de ser ouvidos, precisam que os pais falem abertamente sobre estes temas e de terem capacidade de escuta”, acrescenta.

De acordo com a especialista consultada pelo Observador, a grande maioria dos jovens têm consciência das possíveis consequências da sobredosagem do paracetamol. No entanto, acredita que falta comunicação do lado dos pais para prevenir que os casos se agravem. “É prevenir. Se percebermos que a criança ou adolescente está muito isolada no quarto, é tentar perceber o que é que está por trás disso. É preciso ouvi-los, principalmente. Assusta-me mais os jovens que estão caladinhos no quarto do que aqueles que fazem barulho na sala”, conclui.