A ministra da Cultura francesa, Rachida Dati, revelou esta segunda-feira, segundo os deputados presentes na comissão de inquérito parlamentar em que foi ouvida, que o plano de “reorganizar em profundidade” o Museu do Louvre foi “abandonado”. A missão de revisão do funcionamento do museu fora por ela anunciada no final de Dezembro, após o roubo das jóias da coroa francesa do Louvre ocorrido a 19 de Outubro.

Rachida Dati foi ouvida à porta fechada, dado o seu estatuto de candidata autárquica, por decisão de Alexander Portier, deputado que preside à comissão de inquérito. “Não vamos deixar que a audição da candidata à presidência da Câmara de Paris seja instrumentalizada para fins políticos”, disse fonte da sua equipa, citada pelo diário francês Le Figaro. Foi assim que também coube a Portier desvendar o que declarou a ministra na comissão, que começou os trabalhos às 16h30 (hora de Portugal continental) e que está há semanas a ouvir dezenas de pessoas sobre o Louvre.

O grupo de trabalho que deveria ter começado a trabalhar em Janeiro para reorganizar o Museu do Louvre nunca chegou a reunir-se, soube-se esta segunda-feira. A ministra tinha depositado a chefia da missão em Philippe Jost, supervisor do restauro de Notre-Dame depois do incêndio de 2019, e as primeiras recomendações deveriam ter sido públicas em Fevereiro. Já em Janeiro, o Figaro tinha noticiado que ao invés da “derrapagem” nos prazos com que argumentava o gabinete de Rachida Dati, o grupo de trabalho tinha sido desfeito. Agora, Alexandre Portier disse à Agência France-Press (AFP), após a audição da ministra, que o plano foi abandonado.


Porquê? “Foi abandonado porque a reflexão sobre a reorganização do Louvre avança independentemente deste grupo”, disse Portier à AFP. O deputado remeteu mais explicações práticas para futuros anúncios do Governo, não sem mencionar que a própria direcção do museu está a trabalhar na sua reabilitação. Já o deputado Alexis Corbière entrou em mais detalhes e disse que Dati justificou o abandono da missão contextualizando a decisão com os conflitos laborais existentes no museu, com os sindicatos a exigir reforço dos meios humanos, entre outras medidas. No seu entender, o deputado não vê correlação entre as duas realidades.

A ministra ainda não comentou o que afirmou na comissão parlamentar. De acordo com declarações dos dois deputados, Dati anunciou que foram levadas a cabo “17 medidas” para reformular a gestão do Louvre, mas não foram fornecidos mais detalhes.

Museu vulnerável

A promessa de “reorganizar em profundidade” o Museu do Louvre foi feita depois de terem sido conhecidos vários relatórios que indicavam fragilidades crassas na segurança do museu. Em 2018, a direcção do museu tinha já consigo uma auditoria de segurança, realizada pela joalharia Van Cleef & Arpels, que sublinhava como a varanda usada pelos assaltantes de 19 de Outubro era um ponto de grande vulnerabilidade do Louvre. Em Novembro, depois do assalto mas num relatório terminado antes do furto, o Tribunal de Contas francês arrasava a gestão do museu, considerando que o Louvre “deu prioridade a operações visíveis e atractivas em detrimento da manutenção e renovação de edifícios e instalações técnicas, particularmente as relacionadas com a segurança”.


A gestão da crise do Louvre, que já vinha de antes do roubo com queixas dos sindicatos sobre as condições laborais e a falta de pessoal, é o grande tema desta comissão de inquérito, que durante os seus trabalhos viu também surgir o escândalo do desvio de mais de dez milhões de euros por fraude nas suas bilheteiras. Foram detidas onze pessoas desde o assalto, cinco das quais formalmente acusadas, e as jóias ainda não foram recuperadas; já pela rede que desviou dinheiro da bilhética, foram detidas nove pessoas pelas autoridades francesas.

A primeira volta das eleições autárquicas está agendada para 15 de Março e Dati prometeu sair do ministério antes disso; fontes próximas do Executivo indicam ao diário Libération que esta deverá abandonar o seu cargo no Governo a meio desta semana.