A nova edição da Casa dos Segredos traz um que talvez desperte alguma curiosidade. O segredo “mudei de sexo” foi revelado numa entrevista de Cristina Ferreira ao concorrente, onde o que faltou em noção e empatia, abundou em intromissão e insensibilidade.

Pedro é um homem trans que pretende, com a sua participação e partilha da sua história de vida, derrubar tabus, e mostrar que isto de ser trans não é um bicho-de-sete-cabeças. No final de contas, anda toda a gente à procura da felicidade e de estar bem com o seu corpo.

Infelizmente, assistimos na breve entrevista de sete minutos à insensibilidade da apresentadora, que, ao seu bom jeito e sem qualquer tato, expõe o deadname (“nome morto” em português, é o nome atribuído à nascença) de Pedro e faz ainda algumas perguntas bastante invasivas no que toca à sua genitália e ao seu processo de transição de género. Perguntas que nunca faria daquela forma a uma pessoa cis, claro está.

“Ah, mas qual é o problema de utilizar um nome que foi dele?” Como a designação indica, é um “nome morto”, não faz parte da identidade da pessoa e é, tantas vezes, fonte de desconforto e tristeza, para além de ser usado para invalidar a identidade da pessoa. Mesmo após o notório e comunicado desconforto e tristeza ao rever as fotos, o deadname foi repetido. Lamentável. Alguém faltou às aulas de Empatia 101.

E aí vem a clássica pergunta: “A transformação já está completa?”. “Nós temos de ser elucidativos… o Pedro ainda tem útero, ainda tem uma vagina?”. Elucidativos para quem? O que é que as pessoas telespectadoras têm a ver com a genitália de outrem? E porque é que será isso a ditar se a transição está completa ou não, como se uma pessoa só estivesse completa com um órgão genital, como se não bastasse a pessoa dizer que é. Enfim, é daquelas questões pelas quais as pessoas têm uma esquisita obsessão que nunca compreenderei. Deixem a genitália das pessoas em paz.

E não, não é porque a pessoa está a partilhar a sua história num reality show, e para todo o país, que pode ser colocada numa posição de detalhar os seus órgãos sexuais e reprodutivos.

Isto não é sobre a Cristina nem sobre o Pedro, é acima de tudo sobre a obstinação de qualquer pessoa se achar no direito de questionar o que uma pessoa trans tem como órgão genital, se é funcional, se não é, se o processo está “completo” ou chegou “ao fim”. Se, neste caso, já é um “homem inteiro”.

Saber da existência deste segredo transportou-me até 2013: recordo-me, tal como o Pedro, do Secret Story 4, onde Lourenço Ódin Cunha entrou com o segredo “mudei de sexo este ano”. Recordo-me de ser a primeira vez que ouvia falar sobre pessoas trans e sobre a possibilidade de se poder existir dentro de quem sentimos – e sabemos – ser. Recordo-me da forma como foi escrutinado, das explicações e dos detalhes. Recordo-me de sentir que, embora informativo, tudo fora demasiado invasivo e íntimo.

Mas eram outros tempos e já muita tinta correu, já muita coisa evoluiu no contexto nacional. Volvidos treze anos da participação do Lourenço, talvez esperasse algo diferente, uma abordagem mais respeitosa, menos redutora das vivências trans. Esperava que se contassem histórias da vivência social de alguém que não se identifica com o género que lhe atribuíram à nascença, que desafia o conceito de género que temos como tão imutável na nossa sociedade, que luta pela sua identidade e por quem é, de forma tão corajosa e resiliente. Mas parece que, para alguns, o foco continua a ser o falo que completa o homem e a vulva que completa a mulher.