A igualdade de género nos média portugueses continua longe de ser uma meta alcançada e apresenta mesmo “sinais de regressão”. É a conclusão do relatório nacional do Global Media Monitoring Project (GMMP), que revela um retrato preocupante da presença feminina nas notícias.
“Num dia rotineiro de notícias, as mulheres representam apenas 24% das pessoas visíveis no noticiário”, destaca o estudo, valor abaixo da média global de 26% e um recuo face aos 34% registados em 2020, interrompendo uma década que vinha sendo descrita como de evolução positiva.
O GMMP, conduzido internacionalmente pela World Association for Christian Communication, é o maior e mais antigo estudo sobre disparidades de género nos conteúdos noticiosos.
Em Portugal, os dados foram apresentados numa conferência promovida pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), reunindo responsáveis e investigadores para discutir os resultados relativos a 2025.
Agenda no masculino
A análise mostra que a sub-representação feminina é particularmente evidente nas chamadas hard news. Há uma diminuição de mulheres no noticiário político e económico, “naturalizando a ideia de que as “hard news” se constroem predominantemente a partir da presença e da voz masculinas”.
A agenda mediática continua dominada pela política e Governo, que concentram 43% das notícias analisadas, áreas onde a presença feminina é historicamente mais baixa. Também na economia, ciência, saúde ou no domínio social e legal registam-se níveis inferiores aos da edição anterior do estudo.
Nas fontes de informação, a desigualdade mantém-se. As mulheres são no mínimo três vezes menos ouvidas e a sua convocatória enquanto especialistas é descrita como residual.
“As mulheres permanecem sub-representadas enquanto produtoras de sentido, provedoras de interpretação e vozes de autoridade”, lê-se no relatório. A presença feminina varia entre 18% na rádio, 21% na Imprensa, 24% nos sites noticiosos e 30% na televisão, sendo maior apenas em temas de expressão residual, como celebridades, artes e media ou violência de género (2% das notícias).
Compromisso de todos
Helena Sousa, presidente da ERC, admitiu que os resultados mostram “uma regressão, um retrocesso” em alguns indicadores, lembrando que “os direitos das mulheres são direitos humanos e devem constituir uma preocupação de todos”. Apesar de a ERC receber algumas dezenas de queixas por ano, não existe um quadro sancionatório específico. A intervenção passa sobretudo por recomendações e sensibilização.
Trinta anos após o arranque do GMMP, o retrato português confirma que a feminização parcial das redações não se traduz automaticamente numa mudança estrutural dos conteúdos. O desafio, conclui o estudo, exige responsabilidade partilhada entre redações, direções, reguladores, instituições de ensino e sociedade civil.