Mas voltemos à conceção original do projeto, surgida ainda no decorrer da leitura do contrato que iria assinar com a galeria londrina. Ao deparar-se com uma cláusula de recuperação que o obrigava a devolver os custos de produção caso a exposição fosse replicada, Bruno Zhu entendeu que precisava de uma abordagem alternativa. “Isso acabou por me desviar da via de criação artística e levou-me a fazer algo que não é arte, que não é vendável e que não obedece a essa cláusula”, explica. Em resposta, o artista redigiu um contrato-licença que estabelecia as regras da exibição de um dispositivo passível de ser reinterpretado noutros contextos. É nesse dispositivo, agora aplicado no CAM, que o visitante entra.
Entre portas e diferentes salas, Belas Artes assume-se como experiência espacial e estética, remetendo para a ideia de uma casa que se descobre nas suas várias dimensões. Organizada em quatro salas, cada uma orientada por aspetos de literacia visual, a exposição propõe ao visitante uma experiência errante, sem ponto de partida ou de chegada definidos.
Numa dessas salas revelam-se quatro paredes com quatro cores – verde de Scheele, azul-cobalto, amarelo de Nápoles e vermelhão – historicamente produzidas com recurso a metais pesados e componentes tóxicos; a estas junta-se o lilás, no chão, conhecido como Perkin’s Mauve, descoberto acidentalmente num laboratório que investigava a cura da malária. A escolha não é inocente. Estes pigmentos remetem para a relação estreita entre avanço industrial e desenvolvimento das artes decorativas que moldaram a cultura burguesa do século XIX, tornando-se também ponto de partida para compreender a prática investigativa que atravessa o trabalho de Bruno Zhu em torno de questões como políticas de identidade, legado histórico e relações de poder.