No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a divisão do Império Britânico deu origem a uma das rivalidades mais profundas na comunidade internacional: a da Índia e do Paquistão. Os dois países — um laico de maioria hindu, outro muçulmano — acumularam inúmeros diferendos ao longo das décadas, em particular em redor da região de Caxemira, uma região que ambos reivindicam como sua. A animosidade também se refletiu na política externa: o Paquistão aliou-se à China (país com o qual a Índia tem tensões) e com o mundo árabe, ao passo que a Índia se virou para o Ocidente e até para Israel, país que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, visitou esta semana.

As duas potências nucleares procuram explorar potenciais vulnerabilidades do inimigo, de maneira a enfraquecê-lo. É nesta lógica de rivalidade que o Paquistão acusou a Índia de transformar o Afeganistão numa “colónia” e apoiar o TTP. Nova Deli teria arranjado parceiros (como o grupo rebelde e o regime dos talibã) que contribuíram para desestabilizar Islamabad.

Por sua vez, a Índia sempre negou essas alegações. Em relação aos últimos ataques, o Governo indiano ainda não reagiu oficialmente. Quanto aos da semana passada, o porta-voz do Ministério Estrangeiros indiano, Randhir Jaiswal, “condenou fortemente os ataques aéreos em território afegão” durante o “mês sagrado do Ramadão”. “É outra tentativa de o Paquistão externalizar os falhanços internos”, atirou a diplomacia de Nova Deli, garantindo que “reitera o apoio à soberania, integridade territorial e independência do Afeganistão.”

Uma rivalidade histórica, as ogivas nucleares e Caxemira. O conflito entre a Índia e o Paquistão em sete respostas

Não há provas concretas de que a Índia esteja a apoiar efetivamente o Afeganistão ou os grupos rebeldes anti-Paquistão. Porém, Nova Deli aproximou-se recentemente do regime talibã, organizando encontros entre os líderes dos dois países. Em outubro de 2025, o ministro dos Negócios Estrangeiros afegão, Amir Khan Muttaqi, visitou Nova Deli, declarando que Cabul “procurou sempre estabelecer boas relações com a Índia”. Anunciou também que seriam inaugurados canais de comunicação onde iriam interagir com frequência.

Numa lógica de confronto permanentemente iminente, o Paquistão pode estar a tentar afirmar-se perante a Índia. À Al Jazeera, Raghav Sharma, professor e diretor do Centro Indiano de Estudos Afegãos na Universidade OP Jindal Global, explica que Nova Deli não quer que a aliança entre o Paquistão e a China “tenha via livre” no sul da Ásia. O Afeganistão é um país que a Índia vê como um obstáculo ao seu domínio na região.

“Há interesses de segurança que Nova Deli quer proteger e para isso interagir com os talibã é a única opção”, destaca Raghav Sharma, que ressalva, porém, que existem “diferenças ideológicas” entre os dois países. Apesar desta ligação estratégica, há pouca sustentação de que a Índia tenha mesmo transformado o Afeganistão numa “colónia”. Ainda que os talibã agradeçam o apoio indiano, ainda mantêm alguma autonomia e também se têm aproximado de outros países, como a Rússia.