Exames em dia

O corpo muda e nem sempre avisa, por isso, os exames de rotina na faixa 60+ são tão importantes

Redação

28 Fev 2026 15:40

Para integrar o novo perfil de pessoas com mais de 60 anos de idade que seguem ativas – seja trabalhando, viajando, cuidando de netos ou iniciando projetos novos – não basta querer. É preciso manter atenção redobrada à saúde, já que, biologicamente, o corpo fica mais vulnerável a doenças que evoluem de forma discreta, especialmente as cardiovasculares, metabólicas, ósseas e oncológicas.


 


Paulo Fernandes Formighieri, médico na Divisão de Geriatria do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCRP-USP) e na Geriavida, diz que os cuidados com a saúde são fundamentais em todas as faixas de idade, mas que repercute de maneira especialmente relevante a partir dos 60 anos. “As avaliações médicas neste segmento populacional precisam ser mais frequentes (no mínimo anuais) e mais abrangentes”, afirma ele.


 


O principal instrumento nessa fase, segundo o especialista, é a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), uma análise clínica detalhada, com questionários específicos que objetivam reconhecer as condições gerais de saúde e antecedentes relevantes, identificar hábitos de vida deletérios, estimular hábitos saudáveis para a longevidade e, finalmente, indicar exames de rastreio adequados.


 


“O envelhecimento biológico é heterogêneo e individual”, ressalta Paulo. Cada pessoa envelhece de forma única, mas, de modo geral, alguns pontos merecem atenção sempre: a percepção de redução de desempenho habitual em alguma função que interfira nas rotinas de vida (memória, raciocínio, funcionamento intestinal ou urinário, incontinência urinária e equilíbrio); a condição de tolerância física às demandas do dia-a-dia (redução da velocidade da marcha, perda de força nas mãos e nas pernas, fadiga ou sintomas cardíacos ou respiratórios no esforço, medo ou instabilidade para realização das tarefas); mudanças sensoriais (alterações na audição, visão, paladar);  mudanças na alimentação (dificuldades para mastigar ou engolir, restrição de tipos ou consistências de alimentos e alteração de peso); estado frequente de humor deprimido ou ansioso, sentimentos de angústia e solidão; prejuízo no sono (sono não reparador e sonolência diurna) e dores persistentes ou mudanças corporais (tumorações, áreas de inchaço, inflamação, deformidades e tremores).


 


Entre os hábitos deletérios estão isolamento social, sedentarismo, tabagismo, consumo abusivo de álcool ou drogas ilícitas, abuso de telas e jogos, uso indiscriminado de medicamentos sem supervisão adequada (sedativos, estimulantes, hormônios, fórmulas, vitaminas) e seguimento de orientações de saúde de fontes pouco confiáveis.


 


O engenheiro Guilherme José Binelli, de 85 anos, encara exames com naturalidade. “São desagradáveis, mas necessários”, afirma. Para ele, prevenção não é exagero, mas longevidade consciente. Durante toda sua vida adulta ele sempre fez check-up anual, com direito a exames de sangue, controle de glicemia, hemoglobina, colesterol e ultrassonografias. Em 2023, um exame de rotina detectou uma insuficiência hematológica. O diagnóstico mudou sua rotina. Foi preciso fazer transfusões frequentes, ter um acompanhamento rigoroso e ajustar medicamentos. Hoje, graças ao tratamento, ele já está há quase dois anos sem precisar de transfusão. “Se eu não tivesse tomado as providências necessárias, no tempo certo, provavelmente não estaria mais aqui”, afirma.


 



Parcimônia

 


Por outro lado, Paulo Formighieri diz que é preciso ter equilíbrio com a solicitação indiscriminada de exames, além de evitar riscos inadequados, ansiedade desnecessária e custos elevados. Movimentos internacionais reforçam essa racionalidade e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia apoia. “Não se deve indicar rastreio, tratamento ou intervenção invasiva sem considerar estado funcional, expectativa de vida e decisão compartilhada com o paciente”, explica. Também não se recomenda rastreio para câncer de próstata, mama ou colorretal para pessoas com expectativa de vida inferior a dez anos, tampouco a prescrição de polivitamínicos, reposição vitamínica ou hormonal em idosos assintomáticos.



As recomendações de exames são diferentes de acordo com faixas etárias, sexo (por exemplo, Papanicolao e HPV são relacionados à condição feminina; PSA Total e toque prostático à masculina), riscos pessoais, condições prévias, histórico familiar. Há poucas situações que valem para todos, porque na maioria das indicações há necessidade de observar particularidades.


 



O coração após os 60

 


As doenças cardiovasculares estão entre as principais causas de internação e mortalidade na faixa 60+, muitas vezes evoluindo de forma silenciosa. “Não podemos esperar os sintomas aparecerem. A prevenção é a principal aliada da longevidade”, destaca a cardiologista Patrícia Maria Varotti Martin.

Entre os cuidados indispensáveis nesta área estão a aferição periódica da pressão arterial (previne AVC e infarto) e exames laboratoriais como glicemia, hemoglobina glicada e colesterol, que ajudam a monitorar riscos metabólicos diretamente ligados à saúde cardiovascular. A avaliação da função renal e hepática também ganha importância, especialmente para quem faz uso contínuo de medicamentos.


 


No campo específico do coração, o eletrocardiograma e a avaliação cardiológica são exames estratégicos, sobretudo para quem pratica atividade física ou tem histórico familiar de doenças cardíacas. “Mais do que procurar doenças, esses exames nos permitem agir antes que elas se instalem ou avancem”, reforça a especialista.


 


Pelo menos 150 minutos semanais de exercício físico, sempre respeitando limites individuais e com orientação médica, podem melhorar o condicionamento cardiovascular, controlar o peso, fortalecer músculos e ossos e reduzir o risco de quedas, além de impactar o humor e a cognição – dois pilares do envelhecimento saudável. O ideal é combinar exercícios aeróbicos, como caminhada, bicicleta ou natação, com treino de força e atividades que trabalhem alongamento e equilíbrio (como pilates ou yoga). “Aos 60 anos ou mais, o foco deve ser viver com autonomia, energia e bem-estar. Cuidar da saúde não é apenas acrescentar anos à vida; é acrescentar vida aos anos”, ressalta a médica.


Mais do que comer bem

 


Após os 60 anos, a nutrição também assume papel decisivo na manutenção da autonomia, da força e da vitalidade. E não basta focar apenas na qualidade da dieta, explica a nutricionista Milene Ferronato. “É preciso avaliar se o organismo consegue digerir, absorver e metabolizar adequadamente os nutrientes”, diz ela.


 


Sintomas como estufamento, gases, azia, constipação ou diarreia merecem investigação, assim como cansaço e fadiga frequentes, que podem sinalizar carências ou alterações metabólicas.


 


A rotina alimentar (qualidade, quantidade, frequência e diversidade) precisa ser analisada com cuidado. Neste caso, os exames laboratoriais complementam a avaliação nutricional, identificando deficiências e auxiliando na conduta terapêutica. A suplementação pode ajudar a prevenir quadros como a sarcopenia (perda de massa e força muscular), mas deve ser iniciada apenas após exames bioquímicos e com acompanhamento profissional.


 


“Depois dos 60, nutrir-se bem não é só escolher bons alimentos, mas garantir que o corpo esteja apto a utilizá-los. A parceria entre médico e nutricionista é fundamental para um acompanhamento seguro e individualizado”, conclui a nutricionista.