Um grupo de investigadores internos da corretora de criptomoedas Binance fez uma série de descobertas surpreendentes no ano passado.

Pessoas no Irã haviam obtido acesso a mais de 1.500 contas na plataforma da Binance ao longo do ano anterior. Cerca de US$ 1,7 bilhão (R$ 8,7 bilhões) havia fluído de duas contas da Binance para entidades iranianas com ligações a grupos terroristas, uma possível violação de sanções globais. E uma dessas contas pertencia a um fornecedor da Binance.

Após descobrir as transações, os investigadores as reportaram aos chefes, de acordo com registros da empresa e outros documentos analisados pelo New York Times.

Em poucas semanas, a Binance demitiu ou suspendeu pelo menos quatro funcionários envolvidos na investigação, segundo os documentos e três pessoas com conhecimento da situação. A empresa citou questões como “violações de protocolo da empresa” relacionadas ao tratamento de dados de clientes.

A sequência de eventos mostra que a Binance, a maior plataforma de negociação de criptomoedas do mundo, continuou encontrando evidências de possíveis violações legais em sua plataforma, mesmo depois de se declarar culpada por violar leis antilavagem de dinheiro em 2023. Na época, a empresa prometeu reprimir agentes mal-intencionados que usavam sua plataforma para movimentar dinheiro e disse ter contratado mais de 60 funcionários com experiência em regulamentação para resolver o problema.

Mas os alertas internos sobre as transações iranianas surgiram no ano passado, nos meses anteriores ao perdão concedido pelo presidente Donald Trump ao fundador da Binance, Changpeng Zhao, que havia passado quatro meses em uma prisão federal em 2024 por seu papel nos crimes da empresa. A startup de criptomoedas da família Trump, World Liberty Financial, estabeleceu laços comerciais estreitos com a Binance, e Zhao foi convidado este mês para uma conferência em Mar-a-Lago, o clube de Trump na Flórida.

“Aprendi muito”, postou Zhao nas redes sociais junto com uma foto do evento.

Ao analisar transações de criptomoedas, os investigadores da Binance descobriram que contas na corretora haviam movimentado fundos para entidades ligadas ao Irã, um importante adversário estrangeiro que o governo Trump vem se preparando para atacar. Quando a Binance se declarou culpada há três anos, concordou em pagar uma multa de US$ 4,3 bilhões (R$ 22,14 bilhões) e admitiu ter violado sanções dos EUA, inclusive ao permitir que clientes do Irã usassem sua plataforma. Também concordou em alertar as autoridades americanas sobre qualquer atividade ilegal detectada na corretora.

Uma representante da Binance, Rachel Conlan, disse em comunicado que a corretora tomou medidas para resolver as questões levantadas por seus investigadores. As contas vinculadas aos US$ 1,7 bilhão em transações iranianas foram removidas, disse ela, e a Binance notificou as autoridades.

“Qualquer sugestão de que a Binance conscientemente permitiu que atividades passíveis de sanções continuassem sem controle é incorreta e difamatória”, disse Conlan.

Não está claro exatamente por que os investigadores foram punidos. Nos últimos meses, mais de meia dúzia de funcionários de compliance deixaram a Binance, incluindo um gerente de sanções e o líder da equipe de compliance empresarial. O diretor de compliance da Binance, Noah Perlman, também discutiu sua saída, disse uma pessoa familiarizada com o assunto.

Conlan disse que os investigadores que examinaram as transações iranianas não foram suspensos ou demitidos por “levantar preocupações de compliance”. “Certos indivíduos” envolvidos na investigação foram punidos “em conexão com a divulgação não autorizada de informações confidenciais de clientes”, disse ela.

Mas o momento da punição, pouco depois de as transações iranianas terem sido reportadas no ano passado, levantou a dúvida de se ela estava ligada às descobertas da equipe. Todos os investigadores se recusaram a comentar ou não responderam aos pedidos de comentário. Suas demissões foram noticiadas anteriormente pela Fortune.

Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, disse em comunicado que a acusação contra Zhao fez parte de uma “guerra contra as criptomoedas” do governo anterior. “Essas ações do governo Biden prejudicaram severamente a reputação dos Estados Unidos como líder global em tecnologia e inovação”, afirmou.

Zhao fundou a Binance em 2017 e a transformou na plataforma mais influente do mundo para compra e venda de criptomoedas como bitcoin e ether. À medida que o setor crescia, a Binance processava até dois terços de todas as transações de criptomoedas, gerando receita ao cobrar taxas sobre essas negociações.

A corretora serviu como um destino atraente para lavagem de dinheiro. Em 2023, a Binance se declarou culpada por permitir que pessoas em países sancionados usassem a plataforma e conduzissem negócios com clientes nos EUA. No caso do Irã, promotores americanos encontraram pelo menos 1,1 milhão de transações no valor de quase US$ 900 milhões que violaram a lei federal.

Após a confissão de culpa, Zhao deixou o cargo de CEO, mas manteve participação majoritária na empresa. Ele vale quase US$ 80 bilhões, segundo a Forbes, e continua sendo uma das figuras mais poderosas da indústria de criptomoedas.

Ao longo dos anos, a Binance tomou medidas para instalar salvaguardas contra o comércio ilícito, construindo uma equipe de executivos de compliance, contratando ex-funcionários de aplicação da lei dos EUA que haviam investigado crimes com criptomoedas e outros especialistas com experiência em rastrear transações de moeda digital.

Esses especialistas usam informações publicamente disponíveis e outras ferramentas forenses para identificar os proprietários de carteiras de criptomoedas, que são as contas online anônimas onde as pessoas armazenam e negociam moedas digitais. Eles também compartilham informações com agentes de aplicação da lei ao redor do mundo.

Folha Jogos

Em meados do ano passado, os especialistas em compliance da Binance foram contatados por autoridades policiais de Israel que queriam discutir rotas de financiamento do terrorismo conectadas ao Irã. A Binance iniciou uma investigação centrada em uma empresa agora extinta chamada Hexa Whale Trading Limited.

A Hexa Whale, sediada em Hong Kong, havia usado a Binance para enviar US$ 490 milhões (R$ 2,5 bilhões) a carteiras de criptomoedas ligadas a entidades iranianas, de acordo com os documentos. Em determinado momento, os documentos dizem, um oficial israelense disse aos investigadores que a Hexa Whale estava financiando organizações terroristas como os houthis, uma milícia apoiada pelo Irã que controla o norte do Iêmen.

Na mesma época, os investigadores da Binance também descobriram que pessoas no Irã haviam obtido acesso a mais de 1.500 contas ao longo do ano anterior, dizem os documentos. E estabeleceram que uma frota de navios cargueiros russos, supostamente evadindo sanções, estava usando contas da Binance para pagar membros da tripulação.

Conlan disse que a Binance notificou o Departamento de Justiça sobre a conta da Hexa Whale em outubro e a removeu da corretora. A empresa cumpriu suas “obrigações legais e de relatório”, disse ela.

Ela acrescentou que “a detecção de tentativas de login de jurisdições sancionadas não equivale a atender pessoas sancionadas”. E disse que os navios russos “não estavam sancionados, e a atividade transacional identificada não constituía em si uma violação de sanções”.

A ligação mais significativa que os investigadores descobriram entre contas da Binance e entidades iranianas envolveu uma empresa de Hong Kong chamada Blessed Trust.

A Blessed Trust é de propriedade de cinco empresas incorporadas nas Ilhas Virgens Britânicas e nas Ilhas Cayman, de acordo com registros de Hong Kong. Ela também tinha uma relação comercial com a Binance.

Corretoras de criptomoedas frequentemente trabalham com bancos e processadores de pagamento para ajudar com conversões de moeda ou outros serviços financeiros. A Blessed Trust operava como uma chamada parceira de moeda fiduciária para a Binance, fornecendo uma gama de serviços incluindo pagamentos, dizem os documentos. Em uma mensagem analisada pelo Times, a Blessed Trust listou seus cinco principais clientes por receita. Todos eram entidades da Binance.

Ao longo de aproximadamente os últimos dois anos, os investigadores descobriram, US$ 1,2 bilhão (R$ 6,2 bilhões) em criptomoedas havia fluído da conta da Blessed Trust na Binance para entidades ligadas ao Irã, de acordo com os documentos. Os investigadores encontraram ligações entre essas entidades e carteiras de criptomoedas controladas pela Guarda Revolucionária do Irã, que foi designada como grupo terrorista pelos Estados Unidos e outros países.

Conlan disse que “havia múltiplas carteiras intermediárias com mais de três graus de separação” entre a Blessed Trust e as “carteiras alegadamente associadas” à Guarda Revolucionária.

Ela acrescentou que a Blessed Trust era “um dos vários fornecedores da Binance” e que a corretora não tinha controle sobre ela. A Binance parou de usá-la como fornecedora em janeiro, disse ela.

Leung Ka Kui, diretor da Blessed Trust em Hong Kong, disse que a empresa não “facilitou conscientemente transações em violação de sanções aplicáveis” e que nunca havia feito pagamentos a nenhuma entidade iraniana. Ele disse que o trabalho da Blessed Trust com a Binance era “limitado a desembolsos operacionais de rotina”, como liquidação de faturas e pagamentos de folha de pagamento.

Leung disse que a Blessed Trust não poderia comentar sobre a tomada de decisão da Binance. “Rejeitamos categoricamente qualquer sugestão de que a descontinuação foi devido ao envolvimento com entidades sancionadas”, disse ele.

No outono, dois investigadores internos da Binance levantaram preocupações sobre a Blessed Trust e as transações com o Irã, de acordo com os documentos. Os alertas eventualmente chegaram ao CEO da Binance, Richard Teng, e a Perlman, dizem os documentos.

Em novembro, os dois investigadores foram suspensos, de acordo com os documentos. Outros dois assumiram a investigação, dizem os documentos. Em poucos dias, eles também foram suspensos e bloqueados do sistema interno da Binance.

Conlan disse que nenhum dos funcionários da Binance foi “suspenso ou demitido por levantar preocupações de compliance”.

“A investigação não foi encerrada”, disse ela, e outros funcionários da Binance continuaram trabalhando nela.

Conlan disse que a Binance compartilhou informações sobre a Blessed Trust com a Receita Federal americana (IRS) e o FBI. A empresa planeja enviar um relatório sobre a Blessed Trust ao Departamento de Justiça em 25 de fevereiro, acrescentou ela.