Juan Carlos está a viver em Abu Dhabi desde 2020. Após a sucessão de escândalos associados ao seu nome que poderiam ter tido consequências jurídicas, o Rei emérito decidiu ir viver para os Emirados Árabes Unidos, onde se esperava que passasse o resto dos seus dias. Contudo, a divulgação recente de ficheiros confidenciais sobre um golpe de Estado frustrado em 1981 criou um movimento em Espanha que pede o regresso do ex-monarca pelo papel decisivo que desempenhou para o travar durante a consolidação da democracia espanhola.
Através da divulgação de mensagens e conversas privadas esta quarta-feira, dia em que se celebraram 45 anos desde a tentativa de golpe de Estado que fez os deputados reféns no Congresso, é percetível que o Rei Juan Carlos tentou ativamente travar a trama para impor um regime de inspiração autoritária. Dando ordens claras aos comandantes e repreendendo os autores do golpe de Estado, o Rei emérito desempenhou um papel fundamental para evitar um Governo de salvação nacional que poderia pôr em risco a monarquia constitucional.
Por causa disto, o líder da oposição e presidente do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, escreveu no X, esta quinta-feira, que os espanhóis devem “reconciliar-se” com quem “travou o golpe de Estado”: “Creio que seria desejável que o Rei emérito regressasse a Espanha”. “Reconheceu que cometeu erros inegáveis na sua trajetória, mas foi quem contribuiu para preservar a nossa democracia e as nossas liberdades num momento chave”. O líder dos populares considera que o pai de Felipe VI deveria “passar a última etapa da sua vida com dignidade e no seu país”.
La desclasificación de los documentos del 23F debe reconciliar a los españoles con quien paró el golpe de Estado. Creo que sería deseable que el Rey Emérito regresara a España.
Él mismo ha reconocido errores innegables en su trayectoria, pero quien contribuyó a sostener nuestra…
— Alberto Núñez Feijóo (@NunezFeijoo) February 26, 2026
Não é único a pedir o regresso de Juan Carlos. Vozes influentes dentro do PP — como a presidente da comunidade autónoma de Madrid, Isabel Díaz Ayuso — deixaram o mesmo apelo. O Governo de Pedro Sánchez e até o PSOE não se opõem. A casa real espanhola apenas assinalou que a “decisão cabe” ao Rei emérito. Não é segredo para ninguém que o Rei Felipe VI e o pai estão de costas voltadas. Na biografia publicada recentemente, Reconciliação, Juan Carlos queixou-se de se sentir abandonado pelos familiares.
Amantes, caçadas e escândalos financeiros: o passado de Juan Carlos levou-o a abdicar a favor do filho em 2014 e, anos mais tarde, a sair de Espanha para o exílio. Apesar destas polémicas que mancharam a sua reputação, os documentos confidenciais vieram mostrar que o Rei emérito foi fundamental para que um grupo de militares não impusesse um regime idêntico ao do caudilho Francisco Franco — que, aliás, confiou no antigo monarca para a sua sucessão. O que os ficheiros secretos demonstraram foi que Juan Carlos contribuiu mais do que originalmente se pensava para que Espanha consolidasse o seu regime democrático.
Da imagem de pária que já lhe tinha ficado colada à pele a figura de herói da transição democrática? O legado que deixou o longo reinado de Juan Carlos, de 88 anos, continua a ser um assunto debatido em Espanha, entre elogios e condenações. Exilado e sozinho em Abu Dhabi, o regresso ao país natal poderia novamente transformar a figura do Rei emérito.