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Stress causado pelo diagnóstico, preocupação com o futuro, sentimentos de frustração, culpa por falhas na dieta, barreiras no acesso a cuidados de saúde e sociais… A lista de consequências da fenilcetonúria (PKU) e do seu tratamento não se fica por aqui. Trata-se de uma doença rara que, como explica Elisabete Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Fenilcetonúria e Outras Doenças Metabólicas (APOFEN), “atinge todo o ciclo de vida do indivíduo e da própria família” e que se faz acompanhar por inúmeros desafios. O principal, como explica Esmeralda Martins, Coordenadora do Centro de Referência para as Doenças Hereditárias do Metabolismo, ULS de Santo António, é “o cumprimento regular e rigoroso, durante toda a vida, de um tratamento diário muito restritivo que permita a obtenção de níveis recomendados de fenilalanina no sangue”.

É que quando se trata desta doença metabólica rara que, refere a médica, tem uma “prevalência estimada de 1 para 11.461 recém-nascidos”, o tratamento passa pela dieta, que “tem como finalidade diminuir os níveis de fenilalanina no sangue para valores recomendados como não tóxicos, permitindo assim um normal desempenho neuropsicológico dos doentes”. Algo que configura, tal como confirma a presidente da associação que representa os doentes, “um fator stressante” para estes e para as suas famílias.

Em causa está a fenilalanina, um aminoácido que compõe as proteínas e que, resultado da deficiência de uma enzima, a fenilalanina hidroxilase (PAH), devido a uma mutação no gene que codifica a sua atividade, dá origem à doença. “É uma doença hereditária, de transmissão autossómica recessiva, o que significa que a doença é transmitida geneticamente e ocorre quando o pai e a mãe, mesmo não tendo qualquer sintoma, são portadores de uma mutação no gene da enzima PAH”, refere a especialista.

Daqui resultam concentrações elevadas de fenilalanina no cérebro, que “são tóxicas, influenciando negativamente a mielinização e inibindo a síntese de neurotransmissores”. E, na ausência de um tratamento dietético a partir dos primeiros dias de vida, pode ter como resultado “problemas de desenvolvimento, deficiência intelectual irreversível, microcefalia, convulsões, autismo, hiperatividade e défice de atenção, comportamento aberrante, sintomas psiquiátricos, eczema e diminuição da pigmentação dos olhos, cabelo e pele e perda/má evolução de peso”, o que, reforça a médica, “se irá instalar progressivamente, de forma crónica, a partir dos primeiros meses de vida”.

Diagnosticada através do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, conhecido como teste do pezinho, um exame de rastreio feito aos recém-nascidos, a doença obriga a uma dieta que visa, explica Esmeralda Martins, “diminuir os níveis de fenilalanina no sangue para valores recomendados como não tóxicos, permitindo assim um normal desempenho neuropsicológico dos doentes”.

Uma dieta que consiste na redução de proteínas naturais, substituindo-as por uma fórmula especial sem fenilalanina, mas que contém os restantes aminoácidos. “Adicionalmente, a dieta é complementada com substitutos energéticos e alimentos especiais hipoproteicos. O tratamento dietético terá que durar toda a vida, não ultrapassando valores de fenilalanina sanguínea considerados aceitáveis. Nas formas mais graves estão proibidos alimentos com elevado teor proteico, nomeadamente o leite e derivados, carne, peixe, ovos e leguminosas entre outros, o que empobrece o aporte de vitaminas, minerais e ácidos gordos essenciais e outros nutrientes, causando risco de iatrogenia e síndrome metabólica por manipulação da dieta”.

Os substitutos proteicos e fórmulas específicas são ferramentas essenciais para garantir o crescimento, desenvolvimento e equilíbrio nutricional, contudo, é fundamental considerar as comorbilidades associadas a esta doença, como défices de nutrientes, problemas ósseos, risco cardiovascular, alterações do metabolismo cerebral e risco de comprometimento cognitivo caso a PKU não seja controlada adequadamente. Neste contexto, torna-se particularmente importante a incorporação de mais proteína natural, mantendo o controlo de Phe plasmática. Isto pode melhorar múltiplos aspetos na qualidade de vida dos doentes.

A questão da alimentação é uma das mais difíceis de gerir, sobretudo porque, como refere Elisabete Almeida, “as interações sociais, em Portugal, acontecem, maioritariamente, à mesa e é precisamente à mesa que estas pessoas são diferentes”. Quando se trata de crianças, estas “poderão não entender o porquê de terem de fazer uma dieta específica e também poderão não tolerar a medicação (fórmula); quando entram para a escola, os desafios aumentam e alguns casos de bullying são reportados; em adolescentes, tudo é colocado em causa, a aceitação pelo grupo de pares torna-se o mais importante e, muitas vezes, dão-se casos de revolta e afastamento do tratamento”.

Esmeralda Martins confirma os problemas enfrentados pelos mais jovens, sobretudo no que diz respeito “à dificuldade em cumprir com rigor a dieta restritiva convencional, e em tomar as misturas de aminoácidos em pó, pelo gosto e odor. Este tratamento pode ser limitativo da vida social, escolar e profissional, podendo levar ao abandono da dieta ou à má adesão à terapêutica”.

Na idade adulta, os desafios são outros. “Chega o medo em relação ao falhanço numa maternidade e a incerteza de como será a sua vivência quando atingirem a terceira idade. Além disso, por vezes, a relação com a entidade patronal também acaba por ser desafiante devido às particularidades da PKU e ao que esta necessita – faltas para consultas, necessidade de fazer medicação várias vezes ao dia e mais tempo para fazer uma determinada tarefa quando os valores de fenilalanina estão mais elevados”, refere Elisabete Almeida.

Arlindo Guimas, Centro de Referência para as Doenças Hereditárias do Metabolismo, ULS de Santo António, confirma que nesta fase da vida “os principais desafios são a implementação de um seguimento adequado destes doentes, prevenção da PKU materna, gestão personalizada e adequada da terapia tendo em vista o equilíbrio entre o alvo terapêutico adequado e a expectativa/desejo do doente”. De acordo com o especialista, é preciso “negociar e alcançar um compromisso entre ambos”, assinalando que a dieta é, sem dúvida, “um desafio para os doentes no seu dia a dia e qualidade de vida”.

O controlo dos níveis de fenilalanina continua a ser essencial, uma vez que estes “se associam a um pior desempenho nas funções cognitivas e humor, comprometendo a qualidade de vida da pessoa com PKU. É comum a dificuldade de concentração, ‘brain fog’ e alterações de humor”, sendo ainda desconhecido o impacto no envelhecimento e neurodegeneração.

Segundo o especialista, “uma dieta baixa em fenilalanina é uma dieta muito pobre em proteínas e outros nutrientes essenciais ao crescimento e equilíbrio”, pelo que devem ser equilibradas com suplementos e alimentos especiais. Consequentemente, a dieta deve ser vigiada por uma equipa bem treinada na gestão desta patologia”.

Na mulher que quer engravidar, “o controlo dos níveis de fenilalanina é fundamental, pois evita uma forma muito grave de embriopatia fetal, pelo que nesta fase da vida as mulheres devem ter um controlo muito rigoroso dos níveis de fenilalanina”. No caso da gravidez numa mulher com PKU não vigiada, “com valores de fenilalanina fora do alvo recomendado, os efeitos podem ser catastróficos para a criança. A fenilalanina é extremamente tóxica para o cérebro em formação, causando um compromisso no neurodesenvolvimento da criança, bem como anomalias noutros órgãos (coração)”.

O acesso contínuo a alimentos e suplementos específicos é, segundo a presidente da APOFEN, uma das “necessidades mais urgentes da comunidade PKU”, às quais se juntam “informação atualizada sobre tratamentos, o acesso a acompanhamento especializado, e a sensibilização generalizada sobre a doença. Garantir que os doentes e as famílias têm suporte adequado em todos os momentos da vida é fundamental para uma gestão eficaz da PKU”.

No que diz respeito aos tratamentos, Arlindo Guimas considera que “os avanços esperados devem ter como objetivo um melhor controlo dos níveis de fenilalanina, aliviando alguns aspetos restritivos da dieta desde a idade pediátrica até à vida adulta”.

De facto, melhorar as estratégias de tratamento é um dos grandes objetivos da investigação, confirma Esmeralda Martins, “estratégias que podem não só melhorar as concentrações de fenilalanina no sangue, como também alterar diretamente o metabolismo cerebral. O objetivo será melhorar o resultado e o funcionamento neuropsicológico, bem como facilitar o dia a dia, diminuindo a necessidade de restrição alimentar rigorosa”.

Os avanços científicos dos últimos anos têm aberto novas possibilidades terapêuticas para a PKU, algumas das quais já disponíveis na Europa, que configuram esperança concreta de um melhor controlo da doença e maior flexibilidade no dia a dia dos doentes. Um progresso que, no entanto, só se traduzirá em benefícios reais se for acessível a quem dele precisa.