Os homens da geração Z – nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012 – têm mais probabilidade de ter visões conservadoras e tradicionais do que homens mais velhos, mostra um inquérito global feito a 23 mil pessoas, divulgado esta quinta-feira. Um exemplo: 31% dos homens da geração Z defendem que uma mulher deve obedecer sempre ao marido e 33% consideram que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes.
Estes resultados revelam que “os jovens de hoje são mais propensos do que as gerações mais velhas a ter visões tradicionais sobre os papéis de género”, lê-se no comunicado do estudo, feito com dados de 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Espanha, França, Itália, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia (Portugal não faz parte da amostra). Além do contraste com as gerações mais velhas, há também um contraste com o que as mulheres da mesma geração pensam.
Enquanto quase um terço dos homens mais novos considera que a mulher se deve subjugar ao marido, 18% das mulheres da geração Z também concordam com essa afirmação, enquanto apenas 6% das mulheres da geração baby boomer defende tal ideia.
A sondagem internacional foi feita por especialistas do King’s College London, pelo Instituto Global para a Liderança das Mulheres (GIWL, na sigla em inglês) e pela empresa de estudos de mercado Ipsos para ser divulgada a propósito do dia da Mulher, a 8 de Março.
“A sondagem deste ano mostra que estamos a assistir a uma redefinição de como os homens e mulheres assumem os papéis de género na sociedade actual”, refere Kelly Beaver, directora-executiva da Ipsos no Reino Unido e na Irlanda, citada em comunicado. E nota que isto pode trazer consigo “uma dualidade interessante”: quase um quarto dos homens da geração Z (24%) concordam com a ideia de que uma mulher não deve parecer independente ou autónoma, mas 41% deles também acham que uma mulher com uma carreira de sucesso é mais atraente para o olhar masculino.
Apenas 12% dos homens baby boomers concordaram com a afirmação de que uma mulher não deve parecer independente; entre as mulheres, a percentagem que concorda com esta informação também é inferior: 15% na geração Z e 9% nas baby boomers.
A diferença também era notada no que diz respeito a comportamentos sexuais, com 21% dos homens da Gen Z a dizerem que uma “mulher a sério” não deve iniciar relações sexuais, quando apenas 7% dos homens e mulheres baby boomers concordaram com essa afirmação. Nas mulheres da geração Z, a percentagem que concordava era de 12%.
Os homens desta geração mais nova também tinham visões mais conservadoras em relação a si próprios: 43% dos homens da geração Z acreditam que os homens jovens devem ser fisicamente fortes, mesmo que não o sejam de forma natural.
É profundamente preocupante ver que as normas tradicionais de género ainda persistem nos dias de hoje
Heejung Chung
Os millenials e geração Z também tinham mais propensão para acreditar que um homem que fique em casa a tomar conta dos filhos é visto como menos masculino ou que um homem ficar em casa a tomar conta dos filhos poderá resultar em problemas no casamento (ainda que a maior parte dos inquiridos continue a discordar destas afirmações). Estas percentagens eram mais elevadas (tanto nestas respostas como nas das mulheres deverem obedecer aos maridos) em países como a Índia, Malásia, Tailândia, Turquia, Indonésia, Peru ou Brasil e menos elevadas em países como a Suécia, Países Baixos, Coreia do Sul, Japão, Canadá, França e Espanha.
És feminista?
Apesar destes resultados, a percentagem de pessoas que se define como feministas – quem defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres – também tem aumentado, e as gerações mais novas definem-se mais como feministas do que as mais antigas. No inquérito, 54% das mulheres e 36% dos homens da geração Z afirmaram ser feministas.
No geral, a maior parte dos inquiridos diz ter uma visão pessoal de que as tarefas (como cuidar dos filhos, da casa e ganhar dinheiro) devem ser divididas de forma igual. Ainda assim, reconhecem que, nos seus países, os trabalhos domésticos estão mais associados às mulheres e o rendimento mais associado aos homens. Três em cada cinco inquiridos acreditam que o mundo estaria melhor se houvesse mais mulheres em cargos de topo nas empresas e nos governos.
“É profundamente preocupante ver que as normas tradicionais de género ainda persistem nos dias de hoje e é ainda mais preocupante que muitos jovens pareçam estar a ser pressionados pelas expectativas sociais que, na verdade, não reflectem aquilo em que a maioria de nós acredita”, comenta a professora Heejung Chung, do GIWL, também citada em comunicado.
A investigadora refere que há uma “diferença notória” entre as visões pessoais – que são mais progressistas – e aquilo que pensam ser o que a sociedade exige. Esta diferença é mais vincada nos homens da geração Z, diz, “que não só parecem sentir uma pressão intensa para se conformarem a ideais masculinos rígidos, mas, em alguns casos, também parecem esperar que as mulheres recuem para comportamentos mais tradicionais.”
Com esta sondagem, a investigadora espera poder mostrar que são muitas as pessoas de todas as gerações que querem mais igualdade. “Essas mudanças nos papéis de género não só são mais adequadas às complexas exigências da vida moderna, como também estão associadas a uma maior felicidade, relações mais saudáveis e maior bem-estar para homens, mulheres e famílias.”