Profit warning. A expressão na língua magna dos mercados, o inglês, serve para uma empresa mostrar aos investidores que os resultados que vai divulgar em breve vão ficar muito aquém das expectativas dos analistas. É uma forma de suavizar o impacto quando tudo for divulgado. E foi um profit warning, tradução de alerta sobre resultados, que colocou o grupo chinês Fosun esta sexta-feira, 6 de Março, nas notícias, e que levou a assessoria de imprensa em Portugal a garantir que o compromisso com o país, onde detém a Fidelidade e é o principal accionista do BCP, é de longo prazo e para manter.
Neste caso em especial, e segundo a nota divulgada, a Fosun informou os investidores de que haverá prejuízos anuais a divulgar, e que eles foram, em 2025, cinco vezes superiores aos do ano anterior. A perda esperada está num intervalo entre 21,5 e 23,5 mil milhões de renminbi (2,7 e 2,9 mil milhões de euros ao câmbio actual) para o ano de 2025, quando o resultado de 2024 tinha sido negativo em 4,35 mil milhões de renminbi (562 milhões de euros).
A companhia reconheceu contabilisticamente provisões e reavaliações dos seus activos. Por um lado, o imobiliário “continuou a sua tendência negativa com uma enfraquecida procura do mercado, colocando pressão no segmento imobiliário do grupo”. Por outro lado, houve activos em segmentos de negócio que diz não serem centrais, mas que não especificou, em que reconheceu perdas antecipadamente para os adequar ao real valor de mercado.
Não foram avançados mais pormenores nesse comunicado para explicar estas imparidades, que sendo contabilísticas não afectam as operações, nem o dinheiro gerado por cada negócio. Só haverá novidades nas contas anuais; as semestrais, até Junho, foram positivas, de 661,2 milhões de renminbi (83 milhões de euros), embora tenham representado um recuo de 8% em relação ao mesmo período de 2024.
Os negócios mais importantes para a Fosun (farmácia, saúde, seguros e financeiro) “mostraram uma boa tendência”, revela ainda o profit warning do grupo presidido por Guo Guangchang. As acções da Fosun têm vindo a apresentar uma desvalorização da cotação nos últimos seis meses.
No site oficial da Fosun, o calendário financeiro não indica data para a divulgação dos resultados anuais de 2025.
“Compromisso com Portugal”
O grupo Fosun, que em Portugal tem o presidente da administração da Fidelidade, Jorge Magalhães Correia, como principal rosto, veio assegurar que os resultados não afectam a operação nacional nas várias participações existentes.
“A Fosun tem mantido um compromisso de longo prazo com o mercado português, apoiando activamente o desenvolvimento das suas actividades em Portugal e reforçando continuamente as suas capacidades operacionais a nível global”, começa por ressalvar a mensagem de reacção da assessoria de imprensa da Fosun.
“Esta situação não altera, de forma alguma, o compromisso de longo prazo da Fosun com Portugal. A Fosun continuará a apoiar os planos de desenvolvimento estratégico das empresas do Grupo em Portugal”, continua.
Redução de peso
Nos últimos tempos, os chineses têm mantido os investimentos feitos em território português, bem como os gestores à frente de cada entidade, mas têm reduzido algum do seu peso, e isso vai acontecer em breve na Fidelidade.
A Fosun detém 85% da maior seguradora do país, com cerca de um terço do mercado, sendo que a Caixa Geral de Depósitos detém outros 15%. Está novamente em cima da mesa a colocação de parte do capital da Fidelidade no mercado bolsista. Este plano não é novo, foi anteriormente abortado, tendo há alguns meses voltado a ser um cenário central. O grupo tem crescido com aquisições, tanto dentro como fora das fronteiras nacionais.
Mas, antes dessa redução da posição da Fosun na Fidelidade por via da colocação de parte do capital em bolsa, no fim do ano passado, a própria Fidelidade reduziu o seu peso na empresa de saúde privada Luz Saúde, ao abrir parte do capital aos australianos da Macquarie. A ideia é ter um parceiro com maior músculo financeiro para poder continuar a expandir-se, mas com a Fosun a manter 60% do capital. A participação financeira que a seguradora tem na REN, empresa gestora da rede energética portuguesa, mantém-se em 5,3%.
Quanto ao BCP, o grupo chinês diminuiu a sua posição de praticamente 30% para cerca de 20% em 2024, continuando a ser o principal accionista, mas muito pouco acima da angolana Sonangol.
Nestes três grandes investimentos, a gestão continua a estar nas mesmas mãos: Rogério Campos Henriques, na Fidelidade; Isabel Vaz, na Luz Saúde; e Miguel Maya, no BCP, que deverá ser proposto pela Fosun e Sonangol para um novo mandato como presidente da comissão executiva.