Entre todos os aliados do Irão no Médio Oriente, há um que está a surpreender Israel pela inação. Em vez de entrar no conflito diretamente e ajudar o regime iraniano a sobreviver à ofensiva israelo-americana, o grupo mantém-se fora da guerra e está a observar todos os movimentos atentamente. Para já, não vai agir, mas já avisou que isso poderá mudar. “Sobre a escalada militar, os nossos dedos estão no gatilho, prontos para responder a qualquer momento se os acontecimentos assim o justifiquem”, avisou, esta sexta-feira, Abdul-Malik al-Houthi, o líder dos Houthis, o movimento xiita que ocupa partes do Iémen.

Os Houthis preferem, para já, não entrar no conflito diretamente, o que pode terminar com o seu principal apoio político e económico: o regime iraniano. No Médio Oriente, Teerão montou um eixo de resistência ao redor de Israel, do qual o movimento iemenita faz parte. Os aliados Hezbollah, no Líbano, e as milícias xiitas do Iraque já estão a apoiar o Irão. O grupo do Iémen não, embora tenha manifestado solidariedade e prometido vingança pela morte do aiatola Ali Khamenei.

Dentro do eixo de resistência montado pelo Irão no Médio Oriente, sobra outro movimento: o Hamas. Mas se o grupo palestiniano está demasiado débil para prestar qualquer tipo de auxílio por causa das consequências da guerra em Gaza, os Houthis ainda conservam arsenais de mísseis e drones, tendo ainda a capacidade de atacar as embarcações que passam pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho, numa rota vital para o comércio global — em particular para o transporte de petróleo.

Mar Vermelho. De olhos na situação no Iémen, os Houthis usam Gaza e perturbam o comércio mundial

Noutras fases da guerra contra Israel, desde o 7 de Outubro de 2023, os Houthis atingiram com mísseis e drones território israelita, em solidariedade com o Hamas. Atacaram também embarcações que passavam pelas águas do Estreito de Bab el-Mandeb. Se agiram no passado, o que justifica então este impasse? Por um lado, o movimento xiita atravessa um complexo movimento interno. Por outro, teme as represálias que poderá sofrer dos Estados Unidos e de Israel, tendo ainda outra potência regional bastante atenta ao que o grupo fará: a Arábia Saudita, vizinha do Iémen.

Nos cálculos e nos planos israelitas desenhados antes do conflito, de acordo com o que avançaram fontes das Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês) ao jornal Jerusalem Post, os Houthis já deveriam ter entrado no conflito. Telavive esperava que, depois da morte do aiatola Ali Khamenei, o grupo xiita declarasse guerra e retaliasse. Não o fizeram. Depois, Israel tinha a expectativa de que entrariam para apoiar o Hezbollah, que se juntou à ofensiva na segunda-feira. Também não aconteceu.

Segundo o entendimento de Israel, os Houthis ainda não bombardearam o país porque os Estados Unidos da América (EUA) também estão envolvidos nas operações militares. A presença norte-americana e os possíveis atos de retaliação terão afastado o grupo xiita da guerra, assim como a avaliação de que o Irão é demasiado longe geograficamente do Iémen para entrar em ação. Ainda assim, as Forças de Defesa de Israel não descartam que o movimento iemenita mude de ideias.