Trump declarou que o “seu egoísmo está a colocar vidas norte-americanas em risco, as tropas e a segurança nacional em xeque”. E passou ao ataque. “Assim, estou a ordenar que todas as agências federais do governo dos Estados Unidos cessem imediatamente todo o uso da tecnologia da Anthropic”, declarou. “Não precisamos dela, não a queremos e não vamos voltar a fazer negócio com eles.” Explicou que haveria um período de seis meses para gradualmente deixar a tecnologia da empresa das agências do Departamento de Guerra que usam os produtos da Anthropic.
“É melhor que a Anthropic se retrate e seja útil durante este período de transição, ou usarei todo o poder da Presidência para obrigá-los a cumprir, com consequências civis e criminais graves a seguir”, afirmou Trump.
Às 17h14 de 27 de fevereiro, menos de um quarto de hora após o fim do prazo do Pentágono, foi a vez de o Secretário Pete Hegseth atacar a companhia de São Francisco. “Esta semana, a Anthropic deu uma aula de arrogância e traição assim como um exemplo de como não fazer negócio com o governo dos EUA e o Pentágono”, escreveu na rede social X.
Dizendo que o Pentágono “deve ter um acesso total e sem restrições” aos modelos da empresa, acusou a Anthropic e o CEO Dario Amodei de “terem escolhido a duplicidade”. “Envoltos na retórica hipócrita do ‘altruísmo eficaz’, tentaram forçar as Forças Armadas dos Estados Unidos a submeter-se — um ato cobarde de ostentação de virtude corporativa que coloca a ideologia de Silicon Valley acima das vidas norte-americanas“, atirou. Acusou ainda a empresa de ter uma “posição fundamentalmente incompatível com os princípios americanos”.
This week, Anthropic delivered a master class in arrogance and betrayal as well as a textbook case of how not to do business with the United States Government or the Pentagon.
Our position has never wavered and will never waver: the Department of War must have full, unrestricted…
— Secretary of War Pete Hegseth (@SecWar) February 27, 2026
Já após este desfecho, Emil Michael, de 53 anos, escreveu várias publicações na rede social X onde acusou a Anthropic de estar a “mentir” e, em pelo menos duas ocasiões, incentivou a que Amodei fosse “chamado a testemunhar sob juramento sobre as razões pelas quais está a mentir e a tentar causar vergonha ao exército”. Noutra ocasião, afirmou que Amodei tem “um complexo de Deus”.
As usual, more lies from @DarioAmodei. @AnthropicAI
wanted language that would prevent all @DeptofWar
employees from doing a LinkedIn search! Then, they wanted to stop DoW from using any *PUBLIC* database that would enable us to, eg., recruit military services members or hire… https://t.co/c28ZROKfpq— Under Secretary of War Emil Michael (@USWREMichael) March 2, 2026
De acordo com a Reuters, o braço de ferro com o Pentágono gerou mal estar entre os investidores da Anthropic. Tanto que Amodei ter-se-á reunido com alguns dos principais investidores da empresa, incluindo Andy Jassy, o CEO da Amazon. Outras fontes relataram à agência que consideram que a postura de Amodei para com o Pentágono é uma “questão de ego e um problema de diplomacia”.
Já esta quinta-feira, pouco menos de uma semana após a decisão de Trump, a administração norte-americana passou das palavras aos atos, notificando formalmente a Anthropic de que é considerada um risco para a segurança nacional. A empresa já declarou que pretende contestar esta decisão nos tribunais. “Não acreditamos que esta ação seja legal e não temos outra alternativa se não desafiá-la em tribunal”, anunciou Amodei em comunicado.
Vários especialistas referem que será mesmo a primeira vez em que é usada esta designação para uma empresa made in USA. “É supostamente inédito aplicar este rótulo a uma empresa sem influência estrangeira maligna”, diz ao Observador Nathan Sanders, cientista de dados, afiliado do Berkman Klein Center para a Internet e Sociedade da Universidade de Harvard e co-autor do livro Rewiring Democracy: How AI Will Transform Our Politics, Government, and Citizenship, em tradução livre, Reestruturando a democracia: como a IA transformará a nossa política, o nosso governo e a nossa cidadania.
“Nunca foi feito antes e quase de certeza é contra a lei”, completa o tecnologista Bruce Schneier, co-autor do livro com Sanders. “Mas isto irá para tribunal. Ninguém sabe bem se [a administração] está a cumprir as regras ou quais são as regras. Mas isso é a maneira de Donald Trump, de fazer bullying.”
Dan Ives, analista da WedBush, escreveu numa nota que a categorização de risco é algo “sem precedentes”. “É essencialmente uma letra escarlate que põe a Anthropic na mesma categoria que uma empresa tecnológica chinesa como a Huawei”, exemplifica. “Isto abre agora uma enorme batalha legal entre a Anthropic e o Pentágono nos tribunais para resolver esta questão que pode ter um efeito de impacto em cascata para a Anthropic e Claude, potencialmente na vertente empresarial nos próximos meses.”
Pelo meio, houve mais um ponto a contribuir para a tensão: uma notícia do The Information, publicada na quarta-feira (4 março), sobre um memorando interno de Amodei sem filtros. Atacou os responsáveis do Pentágono e, principalmente, a OpenAI e o seu rival Sam Altman. “A principal razão pela qual [a OpenAI] aceitou [o acordo com o Departamento de Defesa] e nós não foi que eles estão preocupados em apaziguar os funcionários, enquanto nós nos preocupávamos em evitar abusos”, citou o Information. Também acusou a rival de estar a fazer “um teatro sobre a segurança” e de ter cedido “ao elogio estilo ditador” a Trump.
Entretanto, o CEO da Anthropic pediu desculpa pelo tom inflamado do memorando. “Aquela nota em particular foi escrita horas depois da publicação do Presidente Trump na Truth Social” e do tweet de Pete Hegseth, explicou, concretizando, num comunicado feito a 5 de março, que a tinha escrito seis dias antes, ou seja, sábado 28 de fevereiro, precisamente no dia em que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão.
“Foi um dia difícil para empresa e peço desculpa pelo tom da publicação. Não reflete as minhas opiniões cuidadosas ou ponderadas.” Destacou ainda que “não é do interesse” da empresa “escalar a situação” e que, o facto de ser um memorando da semana passada, faz com que esteja “desatualizado face à situação atual”. Emil Michael, do Pentágono, nega que haja “negociações ativas” com a Anthropic.
I want to end all speculation: there is no active @DeptofWar negotiation with @AnthropicAI https://t.co/9gLiK6DNYH
— Under Secretary of War Emil Michael (@USWREMichael) March 6, 2026
As relações entre a Anthropic e o Pentágono podem ter azedado, mas a IA da empresa terá sido “central” para o ataque do passado sábado ao Irão. A Casa Branca não oficializou o recurso à inteligência artificial da empresa, mas meios como o Wall Street Journal, a Reuters ou o Washington Post avançaram que o Claude foi usado na operação “Epic Fury”. Apenas algumas horas depois de uma publicação de Donald Trump na sua rede social, onde acusou a Anthropic de ser uma “empresa woke” a tentar “ditar como é que o grande exército luta e vence guerras”.
A Anthropic fechou-se em copas sobre o assunto. A informação oficial da empresa mais recente sobre o uso de IA pelo exército é genérica: “(…) apoia os soldados da linha da frente em usos como análises de informação, modelos e simulação, planeamento operacional, operações cibernéticas e mais”, revelou Amodei a 4 de março.