O cenário torna-se ainda mais sombrio quando se equaciona a “possibilidade de uma ação articulada da Rússia, para lá da Ucrânia, e da China”. Este movimento de pinça, onde a Rússia avançaria no sentido europeu enquanto a China bloquearia as saídas para os mares, aproveitaria um “momento de muita vulnerabilidade” dos aliados ocidentais.

Segundo o diretor do Observare, a Europa ainda não consegue ser verdadeiramente autónoma em termos militares e de defesa, enfrentando este perigo “sem defesa antimíssil ou satélites próprios”, enquanto aguarda por capacidades que só terá daqui a uma década. No meio desta “desordem sem regras”, o professor aponta ainda o dedo ao risco nuclear entre a Índia e o Paquistão, cujas tensões apenas suspensas podem, perante qualquer rastilho, “mudar o xadrez do globo”.

Esta fragilidade estende-se à Ásia Meridional, onde nota um preocupante “efeito de contágio” da instabilidade no Irão. Luís Tomé recorda que a Índia e o Paquistão “no ano passado estiveram à beira de uma grande guerra nuclear” e que o atual cenário de “desordem, sem regras, sem verdadeiro domínio e controlo das circunstâncias”, convida certos atores a promoverem as suas agendas. A complexidade é agravada pelas alianças cruzadas: o Irão mantém uma “parceria estratégica com a Índia”, o inimigo histórico do Paquistão, enquanto este último enfrenta o “acrescer” do conflito fronteiriço com os Talibãs, no Afeganistão. O especialista frisa que Islamabad tem mesmo acusado Deli de “estar a apoiar os Talibãs”, criando um emaranhado de ramificações em que estes conflitos esquecidos podem, subitamente, desfragmentar a segurança regional e do globo.

Do Mar Vermelho ao coração de África: a geopolítica da pilhagem

As cinco frentes inicialmente identificadas pelo DN encontram um eco profundo e detalhado na análise de Fernando Jorge Cardoso, subdiretor do Observare e especialista em Assuntos Africanos. Para o académico, “juntamente com a Ucrânia, o Sudão será o conflito mais mortífero” da atualidade. Trata-se de uma “tragédia humanitária” com incidência particular em Cartum e no Darfur, onde se processa uma “limpeza étnica”, sublinha o professor catedrático. A importância estratégica é global, continua o especialista, uma vez que a posse de um porto de águas profundas no Mar Vermelho confere a esta guerra uma “potencial influência no trânsito marítimo entre o Índico e o Mediterrâneo”.

No Sael, a violência jihadista intensificou-se drasticamente, criando “terreno fértil para os negócios de mercenários assentes no uso de recursos minerais em troca de proteção”. Esta extensa faixa semiárida, que atravessa África entre o Saara e as savanas do sul, estendendo‑se do Atlântico ao Mar Vermelho, é, toda ela, uma zona frágil onde a pressão de grupos armados, golpes militares e conflitos locais se cruza com pobreza extrema e ausência de Estado, afetando países como o Mali, o Níger, o Chade ou o Sudão. Fernando Jorge Cardoso descreve grupos armados que “vivem da pilhagem da guerra usando interpretações liberalistas do Islão para concitarem apoios”.

Esta dinâmica de exploração replica-se no leste da República Democrática do Congo, num conflito de “natureza geopolítica e económica” que é “financiado pela pilhagem de recursos – designadamente o Coltan e ouro”, afirma o professor.

“São conflitos altamente destrutivos, que provocam deslocações e criam condições para golpes militares como os que aconteceram no Mali, Niger e Burkina-Faso”, mas que, sublinha o especialista, “não têm conseguido parar a atuação dos grupos jihadistas”.

O subdiretor do Observare acrescenta ainda que “este conjunto de conflitos tem importância estratégica, na medida em que criou campo para uma penetração de interesses externos (Rússia, Grupo Wagner, por exemplo) e criou igualmente um terreno fértil para os negócios de mercenários assentes no uso de recursos minerais em troca de proteção.”