Com Israel a parecer assumir cada vez mais o comando operacional e estratégico da guerra, o Irão escolheu um novo líder – que, como o anterior, também se chama Khamenei: Mojtaba é filho de Ali. Os países vizinhos voltaram a ser atacados pelo Irão.
No quadro em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump já disse que a guerra contra o Irão “durará o tempo que for necessário” e “até à rendição incondicional” de Teerão – o que parece indicar que a primeira análise (quatro a cinco semanas) está ultrapassada – a administração continua a enfrentar fortes reservas internas face a uma possível opção pela invasão terrestre. Essas reservas explicam outra face da guerra: a iniciativa dos ataques, a sua intensidade, a escolha dos alvos e a cirurgia com que são atingidos decide-se muito mais em Telavive que em Washington. A razão é simples: a guerra total contra o Irão tem o apoio de todos os israelitas na generalidade.
É neste contexto que as forças israelitas aumentaram o bombardeamento ao Irão nas últimas 24-36 horas, atingindo depósitos de combustível perto de Teerão. As imagens que chegam da capital iraniana não deixam margem para dúvidas: parte da capital está a arder, envolta numa densa nuvem de fumo, após ataques a instalações de armazenamento de petróleo próximas da cidade. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão, Esmaeil Baghaei, disse, citado pelas agências internacionais, que o ataque em grande escala marcou uma “nova fase perigosa” do conflito e constitui um crime de guerra. “Ao atacar depósitos de combustível, os agressores estão a libertar materiais perigosos e substâncias tóxicas no ar, envenenando civis, devastando o meio ambiente e colocando vidas em risco em larga escala”, escreveu nas redes sociais.
Do seu lado, o porta-voz militar israelita, tenente-coronel Nadav Shoshani, disse que os depósitos eram usados para abastecer o esforço de guerra do Irão, incluindo a produção ou o armazenamento de um componente para os mísseis balísticos. Assim, “são um alvo militar legítimo”, afirmou. Para que não houvesse dúvidas, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que o seu governo prosseguiria com a ofensiva e atacaria os governantes do Irão “sem piedade”. “Temos um plano organizado com muitas surpresas para desestabilizar o regime e possibilitar a mudança”, disse. “Temos muitos outros alvos.”
Por seu turno, e mudando aquilo que havia dito logo no início da guerra, Donald Trump disse que não está interessado em negociar o fim do conflito com o poder no Irão. Até porque “Em algum momento, acho que não haverá mais ninguém para dizer: ‘rendemo-nos’”.
Vizinhos voltam a ser visados
Entretanto, e ao contrário do que havia prometido publicamente o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, no sábado – quando pediu desculpa pelos ataques a outros países que não Israel – os governos da Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Bahrein denunciaram ataques de drones iranianos este domingo.
O Ministério do Interior do Kuwait afirmou que dois oficiais foram mortos “no cumprimento do dever”, enquanto os Emirados Árabes Unidos adiantavam que quatro trabalhadores imigrantes morreram em ataques iranianos no país até o momento. O reino disse ainda que as suas defesas aéreas interceptaram 16 mísseis balísticos e 113 drones disparados contra o país. Um míssil caiu no mar e quatro drones atingiram o território. O Bahrein revelou que um ataque de um drone iraniano causou “danos materiais” a uma unidade de dessalinização. A Arábia Saudita informou Teerão que a continuidade dos ataques iranianos contra o reino e o seu setor energético poderia levar Riad a retaliar.
Por seu turno, o Líbano voltou a ser visado pelas armas israelitas – tornando-se cada vez mais um segundo foco da guerra lançada por Israel e pelos Estados Unidos. Às primeiras horas de domingo, Israel matou pelo menos quatro pessoas ao atacar de forma cirúrgica um hotel no centro de Beirute, alegando ter como alvos comandantes iranianos que operavam na cidade. Intensos bombardeamentos no sul e leste do país continuaram ao longo de todo o fim-de-semana.
Um novo líder: outro Khamenei
O fim-de-semana foi também marcado pelas declarações vindas de Teerão de que a escolha de um novo líder supremo estaria para muito breve – numa questão de horas. Mas o certo é que o domingo esgotou-se sem que fosse avançado um nome e só às primeiras horas da noite a escolha foi revelada, sem surpresas. Para os analistas, a demora – que não estava prevista – pode ficar a dever-se a tensões internas entre fações que não estarão, afinal, totalmente alinhadas.
O órgão clerical encarregado de escolher o próximo líder supremo esteve a trabalhar num consenso maioritário, afirmou o aiatola Mohammad Mehdi Mirbaqeri, membro da Assembleia de Peritos. Outro membro do conselho, o aiatola Mohsen Heidari Alekasir, afirmou num vídeo que foi selecionado um candidato com base na orientação de Khamenei de que o líder máximo do Irão deveria ser “odiado pelo inimigo”. O filho de Ali Khamenei – o anterior líder supremo, morto logo no início da guerra – Mojtaba Khamenei, que acumulou poder sob a liderança do pai como figura importante nas forças de segurança e no vasto império empresarial que elas controlam, parecia estar à frente da concorrência e acabou mesmo por ser o escolhido. Escolhê-lo sinalizaria que a linha-dura iraniana permanece firmemente no comando – o que, por outro lado, o colocará de imediato na mira dos ataques cirúrgicos de Israel. Mas, para todos os efeitos, desde que Mirbaqeri disse publicamente que o sucessor estava escolhido, passaram-se pelo menos mais oito horas sem que o seu nome fosse avançado, o que pode ser um sinal de dificuldades internas em impor o nome do filho do líder supremo morto.
A insistência do ataque aos países vizinhos ao longo do fim-de-semana indica, segundo os observadores, que a morte de Khamenei abriu um fosso entre a linha dura e a ‘menos dura’ e que a primeira estará a vencer a contenda interna – deixando o presidente a fazer declarações que depois não consegue cumprir.
Trump afirmou na semana passada que o filho mais novo de Khamenei não é uma opção que a Casa Branca aceite e queria envolver-se pessoalmente na escolha do próximo líder do Irão. Mojtaba Khamenei, de 56 anos, é um clérigo linha-dura mas que nunca passou dos escalões intermédios do poder. Não estava em Teerão quando o pai foi morto, mas possui laços estreitos com a elite da Guarda Revolucionária e é uma das figuras mais influentes no clero iraniano, graças à influência que construiu nos bastidores e ao seu papel como intermediário do pai. De qualquer modo, o facto de nunca ter ocupado um cargo governamental pode levar alguns dos elementos de topo do regime a duvidarem da sua capacidade de liderar o país no quadro da guerra em curso.
Os ataques conjuntos mataram pelo menos 1.332 civis iranianos e feriram milhares deles, de acordo com o embaixador do Irão na ONU, Amir Saeid Iravani. Já os ataques iranianos mataram 10 pessoas em Israel. Pelo menos seis militares norte-americanos foram mortos até agora.