O poder dos cartéis internacionais de droga está a pressionar a Bélgica, que se tornou nos últimos anos o maior ponto de entrada de cocaína no espaço europeu. Em outubro, uma carta anónima de um juiz de Antuérpia já tinha alertado que o país arriscava tornar-se um narco-estado e agora a ideia é reforçada, em declarações ao jornal “The Guardian”, por Bart Willocx, presidente do tribunal de recurso da cidade, que é também um dos maiores portos da União Europeia.
Ainda que o país esteja a tentar combater o fenómeno, a “quantidade de dinheiro envolvida, para influenciar e corromper pessoas, é tão grande que se torna num perigo para a estabilidade da sociedade”, explicou Willocx ao diário britânico.
Com a droga oriunda da América do Sul, chega a violência, não apenas na região de Antuérpia, mas um pouco por toda a Bélgica. Na capital, os distritos de Molenbeek e Anderlecht, por exemplo, destacam-se pela criminalidade organizada, disputa de território, raptos e dezenas de tiroteios associados ao tráfico.
Entre os casos exemplificativos desta nova realidade e destacados por Willocx e Guid Vermeiren, procurador-geral para as regiões de Antuérpia e Limburgo, está o pagamento de 250 mil euros a um trabalhador portuário para mover um único contentor com droga. E quem recusa colaborar arrisca vingança pessoal ou contra a família, com casos de uso de engenhos explosivos como represália. Há ainda relatos de crianças de 13 anos pagas para entrar no porto e retirar a droga dos contentores, de forma dissimulada.
Pressão sobre a Justiça
Em março do ano passado, foi desmantelado um plano para roubar mais de 1500 toneladas de cocaína apreendida de um armazém alfandegário. Na carta de outubro, o juiz anónimo e que se encontrava sob proteção judicial, garantia que os grupos mafiosos se estavam a transformar numa “força paralela” na sociedade, ameaçado a Polícia e o poder judicial.
Desde maio do ano passado, os juízes belgas estão em campanha pelo reforço da segurança dos profissionais da Justiça, com a apresentação de um pacote de medidas, que, entre outros pontos, foca o reforço dos procedimentos de segurança nos tribunais (como detetores de metais ou máquinas de raio-x), mas também os salários dos funcionários judiciais e juízes.
Para os dois responsáveis, que falam num subfinanciamento ao longo de décadas, esta pressão sobre os juízes pode até já estar a ter influência inconsciente nas decisões dos tribunais, prevendo-se que haja também recusas de julgar ou investigar este tipo de casos.
Com funcionários a serem pagos e coagidos pelos cartéis para revelarem dados pessoais de juízes, há cada vez mais magistrados a viver em casas seguras sob proteção policial, uma situação muito dura, descrevem. “De um dia para o outro, tens de deixar a tua casa, deixar a tua família, e viver num sítio desconhecido e onde ninguém sabe que estás”, aponta o economista Olivier Willocx.
Mais de 70% da cocaína que entra na Europa fá-lo pelo porto de Antuérpia ou pelo de Roterdão, a poucas dezenas de quilómetros, mas já nos vizinhos Países Baixos, ainda que a Europol tinham notada uma maior preferência por portos mais pequenos. A amplitude do tráfico de droga nos Países Baixos, Bélgica e França foi revelada pela interceção de chamadas encriptadas, que levou, desde 2021, a 1206 detenções e à identificação de quase cinco mil suspeitos.
Em 2025, foram apreendidas 55 toneladas de cocaína o porto belga.