O presidente do Tribunal da Relação de Antuérpia, Bart Willocx, e o procurador-geral da mesma cidade, Guido Vermeiren, não têm dúvidas que o tráfico de drogas internacional representa uma ameaça real para a Bélgica, que corre o risco de se tornar um narco-estado. “A quantia de dinheiro envolvida – para influenciar pessoas, corromper pessoas e subornar – é tão grande que representa um perigo real para a estabilidade da nossa sociedade”, disse Willocx, numa entrevista conjunta ao The Guardian.  Uma opinião corroborada por Vermeiren: “Estamos a tornarmo-nos um Estado com muita corrupção e muitas ameaças.”

As preocupações dos dois magistrados não são novas e entram em consonância com uma carta aberta de um juiz (anónimo) da Relação de Antuérpia, partilhada pelo mesmo tribunal em outubro de 2025, onde o magistrado referia uma “ameaça organizada” que minava a instituições belgas. Segundo esse juiz, extensas estruturas mafiosas tinham-se conseguido consolidar e, consequentemente, tinham-se “tornado uma força paralela que desafia não apenas a política, mas também o sistema judicial”.

O procurador-geral de Antuérpia lembrou, durante a entrevista, o caso em que narcotraficantes pagaram mais de 250 mil euros a um trabalhador portuário para que movesse apenas um contentor. Por outro lado, todos aqueles que não cooperam com as organizações criminosas são ameaçados: “Recebem cartas, fotografias dos seus filhos. Houve ataques às suas casas com explosivos artesanais.”

As redes de narcotráfico ajudam, por outro lado, alguns jovens a conseguir emprego no porto, para depois instrumentalizá-los quando estes já lá estão a trabalhar, pressionando-os a fazer o que mandam. As operações de suborno vão até crianças de 13 anos, que recebem dinheiro das mesmas organizações para invadir o porto de Antuérpia e roubar cocaína. Segundo Willocx, polícias e funcionários de hospitais estão a receber subornos e/ou ameaças para fornecerem informações privadas, como as moradas de juízes, procuradores e polícias.

Há, por isso, juízes “a sair de casa” e a “deixarem as famílias” para irem morar “num lugar onde ninguém” saiba onde estão. O juiz da carta anónima, por exemplo, viveu durante quatro meses numa casa segura. “De um dia para o outro, é preciso sair de casa, deixar a sua família e morar num lugar desconhecido”, diz o presidente do Tribunal da Relação de Antuérpia, explicando como foi difícil o momento vivido pelo seu colega.

Além disso, de acordo com o The Guardian, crê-se que algumas destas organizações de narcotráfico participaram no planeamento do sequestro do ministro da Justiça belga, Vincent Van Quickenborne, em 2022, sendo também responsáveis por múltiplos tiroteios em Bruxelas.

O problema com a droga na Bélgica está relacionado com o aumento das quantidades de droga que entram no país pelo porto de Antuérpia, principalmente provenientes da América do Sul. Aliás, um relatório da Europol diz mesmo que 70% das drogas que entraram na Europa em 2024 passaram pelos portos de Antuérpia e Roterdão, nos Países Baixos.  “Temos um problema sério e precisamos de investir mais em pessoas e recursos para lidarmos com ele”, alertou Willocx.

A dimensão das operações de tráfico de droga na Europa foi descoberta quando equipas de investigação da Bélgica, França e Países Baixos conseguiram entrar na rede de comunicações encriptadas Sky ECC, utilizada por narcotraficantes para compra e venda de droga, planear entregas de dinheiro e encomendar homicídios. “Era ainda pior do que pensávamos”, confessou Vermeiren ao jornal britânico. Essa entrada na rede fez com que os investigadores percebessem em tempo real as dimensões de uma organização ilícita que vai da América do Sul até ao Dubai.