O Irão está a “pressionar o mundo inteiro através da escassez de petróleo e gás”. No ocidente há movimentações para desbloquear essa pressão

Os impactos económicos da guerra no Irão começaram a sentir-se imediatamente no preço dos combustíveis e teme-se um “efeito dominó”: aumento dos preços dos dos bens alimentares e dos serviços, por exemplo. Acontece que é exatamente esse o objetivo de Teerão: “Pressionar o mundo inteiro através da escassez de petróleo e gás para que a guerra acabe depressa”, uma vez que as capacidades ofensivas do Irão ficam mais debilitadas “a cada dia que passa”, diz à o major-general Jorge Saramago.

Mas tanto Donald Trump como Emmanuel Macron não vão aceitar que o Irão “use a energia como forma de pressionar o mundo”, sublinha Jorge Saramago. “Se necessário pela força, vão criar condições para que a energia flua.”

Esta terça-feira, o chefe de Estado francês anunciou mesmo uma nova operação para o Estreito de Ormuz, que permitirá em teoria escoltar vários navios comerciais, de forma a devolver à região alguma “liberdade de navegação e segurança marítima” – palavras de Macron, citado pelo Kyiv Independent.

Os navios deixaram de circular pelo Estreito de Ormuz, vencidos pelo receio de serem atingidos pelas ofensivas de Teerão. Sem capacidade para pagar os danos, uma vez que as seguradoras não cobrem os estragos provocados pela guerra, os armadores não arriscam perder a carga nem os navios. O Irão imobilizou dessa maneira a rota por onde passa 20% do petróleo consumido em todo o mundo e que Macron pretende “reabrir gradualmente”. Como?

Desde logo, a manobra tem de ser coordenada com os americanos, que ficaram encarregados de “derreter” as forças em terra, começa por explicar o major-general Jorge Saramago. “Muito provavelmente, os EUA vão aproximar o porta-aviões que tinham no Mar Arábico, e respetiva esquadra de apoio, da entrada do Estreito de Ormuz. Um outro porta-aviões, o USS Gerald R. Ford, recebeu ordens para se deslocar para algures no Mar Vermelho.”

Os mais recentes posicionamentos permitem aos americanos, “já desde segunda-feira, lançar ataques terrestres e aéreos sobre alvos em terra, portanto bombardear as posições iranianas a partir das quais Teerão pode abater navios no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico”. Para Jorge Saramago, este será o primeiro movimento dos Estados Unidos.

Quanto a França: após ter ordenado a deslocação do porta-aviões francês Charles de Gaulle para mais perto de Israel, agora pode “destacar um ou dois” dos três navios de guerra que acompanham o principal navio bélico francês. “Macron vai destacar um ou dois desses navios ou mandar vir mais fragatas para se deslocarem para o Mar Arábico, perto do Golfo de Omã.”

Toda a preparação culmina na escolta de um “comboio” de petroleiros que, segundo Jorge Saramago, são obrigados a seguir as trajetórias previsíveis, já que o estreito, no ponto mais apertado, “tem cerca de 35 quilómetros”. “Num ambiente em que a ameaça inclui mísseis, drones, pequenas embarcações, interferência GNSS/AIS e potencialmente minas, um comboio demasiado grande transforma-se num alvo mais fácil de localizar, saturar e desorganizar”, ressalva o major-general.

Escoltados por aviões e por navios de guerra americanos, franceses e de todos os países que se juntem à iniciativa – e que têm defesa aérea -, “a fila de petroleiros segue protegida, os navios enchem os depósitos e depois são escoltados em sentido contrário”. Nesta altura espera-se que estejam mais protegidos de ataques iranianos, dado que “já não há forças iranianas que consigam fazer tiro direto, tem de ser mesmo com mísseis e drones”.

A escolta em si “efetivamente não vai fazer mal a ninguém”

Mesmo sem Macron a especificar nomes de outros países, as movimentações junto do estreito indicam que a iniciativa parece contar com o apoio dos EUA e dos alemães, que “também já deslocaram navios de guerra para Chipre”. Jorge Saramago antecipa a adesão de mais meios navais ocidentais.

“Vai haver uma espécie de coligação de vontades”, acrescenta o tenente-general Rafael Martins. Além dos EUA e de França, também Inglaterra será uma das “grandes interessadas, porque tem lá bases e muitos negócios na zona”. Há ainda Turquia e os países do Golfo, que têm “muito dinheiro e alguns recursos”.

Durante a visita a Chipre, Macron deixou claro que a operação no Estreito será “puramente defensiva”, pelo menos no que à participação francesa diz respeito. “São os EUA e Israel que conduzem as operações ofensivas”, explica o major-general Jorge Saramago – e sublinha que as forças americanas e israelitas “vão atacar as posições militares fixas que o Irão tem em terra e a partir das quais conseguem atingir com sistemas terrestres os barcos”.

Quando isso estiver concretizado pelos EUA e Israel, Teerão pode continuar a atacar com drones e mísseis, mas “já não será a partir da margem, será de mais longe, portanto é menos preciso”. A escolta em si “efetivamente não vai fazer mal a ninguém, não vai atacar o Irão, vai só seguir aqueles petroleiros”. Se for atacada, aí “defende-se”.