Os preços do petróleo voltaram a disparar durante esta quarta-feira, depois de terem amanhecido com uma evolução mais estável. As notícias ligadas à guerra no Médio Oriente, desde a libertação de reservas da matéria-prima até a novos ataques a embarcações no estreito de Ormuz, estão a ditar o desempenho.

Os preços dos contratos de Brent do Mar do Norte, referência para as importações feitas por Portugal, começaram a tarde a somar perto de 5%, superando os 92 dólares por barril, estando a registar subidas até superiores pelas 17h30, aquando do fecho dos mercados europeus. O crude WTI estava a valorizar mais de 5%, com o barril a aproximar-se dos 88 dólares, pelas 12h45, numa dimensão que se manteve pela tarde.

São aumentos que se seguem ao intenso deslize vivido na terça-feira, à boleia do que se passa no Médio Oriente, e que coloca nova pressão ascendente nos preços a que os barris da matéria-prima são transaccionados tanto em Londres como em Nova Iorque.

Esta quarta-feira, foi notícia que a Agência Internacional de Energia (AIE) iria propor a libertação extraordinária de reservas estratégicas de petróleo a uma escala inédita, superando inclusive o que aconteceu em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. O Wall Street Journal adiantou que a libertação de 400 milhões de barris iria mais do que duplicar a última libertação de reservas, o que foi confirmado ao início da tarde, mas, antes disso, já mexia com os preços.

Os países do G7 (grupo formado Alemanha, Canadá, Estados Unidos da América, França, Itália, Japão e Reino Unido) já se tinham mostrado favoráveis, e o acordo unânime dos 32 países da AIE chegou sob a forma de comunicado. “Os desafios relativos ao mercado petrolífero que estamos a enfrentar são de uma escala sem precedentes, e por isso fico muito satisfeito que os países membros da agência tenham respondido com uma acção colectiva de emergência de uma dimensão sem precedentes”, afirmou Fatih Birol, director executivo da agência, aí citado. O calendário ainda não está definido.​

Portugal liberta 10% de reservas

Segundo o mesmo comunicado, os países membros da agência possuem 1,2 mil milhões de barris, a que acrescem 600 milhões de barris na posse do sector petrolífero por decisão governamental. Esta é a sexta vez em que há uma actuação coordenada para libertação de barris (1991, 2005, 2011 e duas vezes em 2022), diz a agência. E Portugal vai contribuir.

“Vamos partilhar com vários parceiros à escala internacional aquela que foi uma das conclusões da reunião do G7. Vamos disponibilizar, em princípio, 10% das nossas reservas estratégicas, para poder haver mais oferta, e maior contenção dos preços dos combustíveis. Estamos alinhados”, segundo declarou Luís Montenegro aos jornalistas esta quarta-feira, de acordo com a transmissão da RTP Notícias. O primeiro-ministro não indicou a quantidade de barris, mas o Jornal de Negócios calcula que sejam dois milhões.

De forma independente, o Japão também deverá libertar, até à próxima semana, reservas da matéria-prima, de acordo com informação transmitida pela primeira-ministra do país.

Ataques a embarcações preocupam, Irão deixa aviso

Porém, o possível aumento de petróleo disponível no mercado não está a conter a subida de preços, tendo em conta os receios sobre a oferta, e mesmo após a confirmação oficial da maior libertação de reservas de sempre a valorização continuou.

O tráfego marítimo no estreito de Ormuz, com os ataques a embarcações que se vão registando (três esta quarta-feira), continua a trazer receios para o mercado, tendo em conta que um quinto do fornecimento global de petróleo passa por ali.

A agência Reuters noticiou que o porta-voz do comando militar iraniano, Ebrahim Zolfaqari, dirigiu-se aos Estados Unidos dizendo que devem estar preparados para que o barril de petróleo mais do que duplique de preços: “Preparam-se para petróleo nos 200 dólares por barril, porque o preço do petróleo depende da segurança regional que vocês destabilizaram”, declarou.

O disparo que os preços do petróleo estão a registar desde o ataque dos EUA e Israel ao Irão já está a encarecer os preços de combustíveis em Portugal, tendo o gasóleo nos postos de abastecimento verificado o maior agravamento de sempre (e muito parcialmente compensado por um desconto fiscal). A duração do conflito é apontada pelos especialistas como determinante para a evolução dos preços (o BNP Paribas, por exemplo, calcula que o prolongamento poderá levar o valor acima dos 130 dólares por barril), bem como para eventuais acções de bancos centrais para combater a inflação. A inflação na maior economia do mundo manteve-se, em Fevereiro, nos 2,4%, foi divulgado esta quarta-feira.

(actualizada pelas 14h35 com informação de que a libertação de reservas pela Agência Internacional de Energia foi confirmada oficialmente; actualizada às 15h25 com informação sobre contributo nacional nessa libertação; actualizada às 17h45 com novas cotações do petróleo no fecho dos mercados europeus)