Jamie Selzler temia o exercício físico desde que se lembrava. Ao longo dos 20 e 30 anos, à medida que seu peso aumentava, ele se obrigava a ir à academia. Mas, enquanto pedalava e levantava pesos, não conseguia afastar a imagem mental da treinadora Jillian Michaels, do programa The Biggest Loser, gritando com ele para se esforçar mais, para perder mais peso. Muitas vezes, recompensava-se por ter perseverado comendo uma grande refeição depois do treino, geralmente fast food.

Com o tempo, já no início dos 40 anos, havia ganhado tanto peso que tinha dificuldade até para caminhar até a caixa de correio.

Em 2023, temendo ficar completamente imobilizado, Selzler começou a tomar o medicamento para perda de peso Wegovy. Depois de vários meses, à medida que emagreceu e a atividade física se tornou mais fácil, surpreendeu-se ao perceber que aguardava com expectativa as caminhadas diárias pelo bairro onde mora, em Fargo, na Dakota do Norte. Ao levantar pesos em casa, passou a gostar de sentir os músculos se contraindo. Pela primeira vez, deixou de enxergar o exercício como uma forma de queimar calorias e passou a se orgulhar do que seu corpo era capaz de fazer.

Hoje, ele caminha ou faz trilhas por mais de 11 quilômetros todos os dias em parques locais e faz treino de força quatro vezes por semana. “Eu me apaixonei pela atividade física de um jeito que nunca imaginei”, diz Selzler, 47. Recentemente, ele se certificou como personal trainer.

Jamie Selzler faz treino de força quatro vezes por semana Foto: Dan Koeck/The New York Times

Para muitos americanos, os medicamentos para perda de peso amplamente chamados de GLP-1 estão transformando a maneira como pensam e se sentem em relação ao exercício e, em alguns casos, remodelando uma relação por muito tempo marcada pela vergonha.

Em entrevistas, mais de uma dúzia de pessoas que tomam remédios como Ozempic para tratar obesidade ou diabetes disseram estar descobrindo que, livres da pressão de se exercitar para queimar calorias ou quilos, conseguem se conectar melhor com aquilo de que realmente gostam no movimento. Em vez de ver o exercício como punição por comer demais — ou a comida como recompensa por se exercitar — agora o encaram como um caminho para se sentir bem.

Quando as pessoas tentam perder peso sem esses medicamentos, muitas vezes ficam consumidas pelos detalhes de quanto comer ou quanto se mover, avalia Summer Kessel, nutricionista especializada em manejo da obesidade e que também toma Zepbound. “A maioria das pessoas não tem espaço mental durante uma dieta para perguntar: ‘Por que eu odeio exercício?’”, afirma.

Os medicamentos podem libertar as pessoas para “tomar decisões diferentes em relação ao exercício”, completa ela.

Durante décadas, a indústria do fitness esteve entrelaçada à perda de peso, destaca Renee Rogers, fisiologista do exercício e pesquisadora em obesidade no University of Kansas Medical Center, apesar de o exercício isoladamente geralmente não ser uma estratégia eficaz para emagrecer. Com a ascensão desses medicamentos, profissionais da área têm a oportunidade de ajudar as pessoas a redefinir o papel do movimento em suas vidas, disse.

‘Agora vejo a comida como combustível’

Muitas pessoas que usam esses medicamentos disseram sentir-se recém-motivadas a fazer treino de força, já que algumas evidências sugerem haver uma ligação entre os remédios e a perda de massa muscular. (Ainda não está claro se essa perda é causada diretamente pelo medicamento ou se é apenas um subproduto da perda significativa de peso, explica Renee, que conduz pesquisas para entender melhor a questão.)

Dana Greene, 59, sempre encarou a atividade física como uma obrigação, mas, quando começou a tomar Mounjaro, passou a sentir entusiasmo ao usar os aparelhos de musculação na academia.

Ela havia passado vários anos cuidando da mãe, que se tornara completamente sedentária. Quando a neta de Dana nasceu, sua mãe estava fraca demais para segurá-la no colo. “Foi difícil assistir a isso”, comenta ela, acrescentando que pensou: “Isso não vai acontecer comigo.”

Dois anos após iniciar o medicamento, um grande carvalho caiu em sua propriedade. Em dois fins de semana, Dana cortou e removeu a árvore inteira. “Meu pai, meu irmão, todo mundo ficou tipo: ‘meu Deus’”, contou. “Eu fiz tudo sozinha.”

Depois de começar a usar Mounjaro, Dana Greene se sentiu motivada a fazer musculação Foto: Sylvia Jarrus/The New York Times

Para algumas pessoas, esses medicamentos também estão tornando o exercício fisicamente mais confortável, tanto ao ajudar na perda de peso quanto, possivelmente, ao reduzir a inflamação.

Quando Lee Anglea, 57, começou a tomar Mounjaro em 2024, sentia uma dor constante nos tornozelos, joelhos, quadris e na região lombar. Muitas vezes usava bengala. “Eu tinha pavor de exercício”, lembra ela. “Se eu tentasse caminhar, ficava com dor por dias.”

Pouco depois da primeira dose, conta, a dor diminuiu, e ela passou a aumentar gradualmente o número de passos diários. Também começou a fazer treino de resistência e ioga na cadeira. Sentia-se progressivamente melhor e adorava como o movimento acalmava sua mente.

“Eu realmente achava que as pessoas que diziam ‘exercício pode te deixar mais feliz, exercício é divertido’ não estavam dizendo a verdade”, afirma. “Eu simplesmente não conseguia entender como isso poderia ser possível.” Agora, disse, “é uma alegria absoluta.”

No ano passado, ao cruzar a linha de chegada de sua primeira corrida de 5 km, “eu chorei como um bebê. Eu simplesmente não conseguia acreditar”, conta.

Algumas pessoas que usam esses medicamentos também percebem que o novo desejo de se exercitar está ajudando a enxergar a comida como uma fonte vital de energia, e não como um obstáculo à saúde.

“Por muitos anos antes de usar um GLP-1, eu via a comida como recompensa por me movimentar”, destaca Selzler. “Agora vejo a comida como combustível para o meu movimento.”

‘É meio que uma faca de dois gumes’

Nem todos que usam medicamentos para emagrecer tiveram uma experiência tão positiva com o exercício. Fóruns online estão repletos de relatos sobre a dificuldade de lidar com fadiga ou efeitos colaterais gastrointestinais que podem tornar difícil se movimentar.

Para alguns, isso pode ocorrer por não estarem comendo ou se hidratando o suficiente, já que os medicamentos funcionam em parte reduzindo o apetite e também podem diminuir a sede.

E, com todo o foco em preservar a massa muscular, algumas pessoas estão priorizando proteína em detrimento de uma alimentação equilibrada e rica em líquidos, o que pode melhorar resistência e força, segundo especialistas.

Para Becky Hinman, 38, tenista recreativa competitiva, o Zepbound foi “meio que uma faca de dois gumes”, define ela. Embora a perda de peso tenha aliviado a dor no joelho e a deixado mais rápida em quadra, passou a se cansar mais rapidamente e tinha dificuldade para completar uma partida de simples. Com o tempo, reduziu a dose e melhorou a alimentação e a hidratação, e percebeu que os efeitos colaterais diminuíram.

‘Eu não vou voltar atrás’

A indústria do fitness está se adaptando lentamente a um mundo em que promessas de perda de peso dramática talvez já não sejam suficientes para atrair clientes. Alguns profissionais veem os medicamentos como ameaça; outros passaram a oferecer programas de treino voltados especificamente para quem usa esses remédios.

Renee, que tem trabalhado com o American Council on Exercise para orientar profissionais sobre esses medicamentos, vê esses programas com cautela, já que não está claro em que evidências se baseiam.

Em vez disso, ela enxerga os remédios como uma oportunidade de ajudar mais pessoas a encontrar alegria e significado no exercício — e a descobrir o que funciona melhor para cada uma.

“Não podemos ignorar que, para quem nunca se identificou como uma pessoa que se exercita, ou teve experiências negativas, pode ser preciso um pouco mais de apoio para chegar lá”, afirma.

Selzler agora não consegue imaginar uma vida sem longas trilhas pelos parques da Dakota do Norte ou sem acompanhar a evolução do seu supino na academia. “É como se eu tivesse saído da prisão — e não vou voltar”, diz.

Este texto foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.