Quem entra hoje numa sala de aula de arquitetura percebe rapidamente algo que contrasta com a imagem histórica da profissão: nas universidades, as mulheres já são maioria. São elas que discutem projetos, e que ocupam as primeiras filas das aulas. A arquitetura, uma disciplina durante muito tempo associada a figuras masculinas, está silenciosamente a mudar.
A indústria da construção foi um território predominantemente masculino. Durante décadas (talvez séculos) foi um campo associado à força física, ao trabalho no estaleiro, às hierarquias rígidas e a uma cultura profissional onde as mulheres dificilmente tinham lugar. A arquitetura, embora mais próxima do desenho e da reflexão intelectual, nunca esteve completamente separada dessa realidade. Entrar nesta profissão significava também entrar numa cultura profundamente masculina.
Nos últimos anos, a tecnologia tem vindo a transformar profundamente a forma como projetamos, representamos e construímos arquitetura. Ferramentas digitais, novos processos de modelação e sistemas colaborativos continuam a alterar radicalmente o processo de projeto. O trabalho do arquiteto deixou de estar tão ligado à lógica do estaleiro e passou a integrar também competências digitais, colaborativas e interdisciplinares. De forma silenciosa, esta transformação teve também um efeito democratizador.
Esta mudança levanta uma pergunta inevitável: se as mulheres são hoje tantas nas escolas de arquitetura, porque continuam a ser menos visíveis na profissão?
Ao deslocar o foco da profissão para competências intelectuais, digitais e colaborativas, abriu-se espaço para uma geração que já não se define pelos mesmos códigos da construção tradicional. E é precisamente essa geração que hoje ocupa as salas de aula das escolas de arquitetura.
Os números estão a inverter-se. O que durante décadas foi uma profissão associada sobretudo a homens está agora a ser lentamente redefinido por uma nova geração de arquitetas em formação. Mas esta mudança levanta uma pergunta inevitável: se as mulheres são hoje tantas nas escolas de arquitetura, porque continuam a ser menos visíveis na profissão?
Parte da resposta está na própria cultura disciplinar. Durante muito tempo, a arquitetura construiu-se em torno da figura do “autor”: o arquiteto visionário, o criador individual, o nome que assina a obra. Uma narrativa que favoreceu, historicamente, protagonistas masculinos.
No entanto, a prática contemporânea da arquitetura está cada vez mais distante desse modelo. Projetar tornou-se um processo coletivo, interdisciplinar, distribuído entre equipas e especialistas.
Talvez seja precisamente aqui que a nova geração possa redefinir a disciplina. Não porque exista uma forma feminina de fazer arquitetura. A arquitetura não tem género. Mas porque as experiências e as perspetivas que cada geração traz consigo inevitavelmente transformam a forma como pensamos o espaço, a cidade e o território.
E, se quisermos perceber para onde a arquitetura está a caminhar, talvez devamos olhar com mais atenção para as salas de aula. Ali, a mudança já começou. Entre maquetes, desenhos e debates, uma nova geração está a aprender não apenas a projetar edifícios, mas a questionar o papel da arquitetura no mundo contemporâneo. E cada vez mais, essa geração é composta por mulheres.
O futuro da arquitetura talvez ainda esteja em construção. Mas nas salas de aula já é possível vê-lo a ganhar forma.