Hoje, 13 de março de 2026, celebramos uma década desde que o mundo parou para ver um tabuleiro de madeira e pedras pretas e brancas em Seul. Parece que foi noutra vida, mas foi há exatamente dez anos que o AlphaGo, o sistema de inteligência artificial da Google DeepMind, derrotou Lee Se-dol, o mestre mundial de Go. Na altura, os especialistas diziam que seria necessário mais uma década para a IA atingir esse nível. A DeepMind fê-lo em 2016, e o que aconteceu a seguir mudou tudo, desde a medicina à física quântica.
Se estás a ler isto, provavelmente já usas o Gemini ou o GPT no teu dia-a-dia, mas convém não esquecer de onde veio a “faísca”. O AlphaGo não foi apenas um programa que ganhou um jogo; foi a prova de que as máquinas podiam ter aquilo que pensávamos ser exclusivamente humano: intuição e criatividade.
O “Movimento 37”: O erro que era, afinal, genialidade
Recuemos ao Jogo 2 daquela partida histórica. A meio do confronto, o AlphaGo colocou uma peça numa posição que nenhum humano alguma vez consideraria. Os comentadores riram-se, achando que era um erro de programação. Lee Se-dol teve de se levantar da mesa para recuperar o fôlego.

Aquele ficou conhecido como o Movimento 37. Não era um erro; era uma jogada vinda do futuro. O sistema não estava a imitar jogadas humanas; estava a inventar uma estratégia nova, navegando entre as 10 posições possíveis do tabuleiro (para terem noção, há mais jogadas no Go do que átomos no universo observável). Foi ali que Demis Hassabis e a sua equipa perceberam: se a IA consegue resolver o Go, consegue resolver o mundo físico.
Do Tabuleiro para o Laboratório: A revolução biológica
Muitos perguntaram na altura: “E agora? Vamos passar a vida a jogar xadrez contra computadores?”. A resposta chegou em 2020 com o AlphaFold 2. A equipa pegou na mesma lógica de pesquisa e aprendizagem por reforço do AlphaGo e aplicou-a ao maior puzzle da biologia: o enovelamento de proteínas.
Prever a forma 3D de uma proteína era um desafio com 50 anos. O AlphaFold resolveu-o, mapeando a estrutura de 200 milhões de proteínas conhecidas. Hoje, em 2026, mais de 3 milhões de investigadores usam estes dados para criar vacinas contra a malária e enzimas que devoram plástico. O Prémio Nobel da Química de 2024 entregue a Hassabis e John Jumper foi apenas a confirmação oficial: a IA tornou-se o microscópio do século XXI.
O Legado: AlphaZero, Gemini e o “Deep Think”
Depois do AlphaGo veio o AlphaZero, que aprendeu a jogar xadrez do zero, sem manuais humanos, em poucas horas. Destruiu os melhores programas do mundo com um estilo de jogo agressivo e quase romântico, que os grandes mestres humanos agora tentam copiar.
Atualmente, essa tecnologia evoluiu para o que vemos no Gemini. Os modelos de “Deep Think” que usamos hoje, capazes de resolver problemas matemáticos de nível de Olimpíadas Internacionais (alcançando o ouro em 2025), são descendentes diretos daquela arquitetura. A IA já não se limita a prever a próxima palavra de um texto; ela debate hipóteses científicas de forma autónoma.
Marcos que o AlphaGo desbloqueou:
- AlphaProof: Capaz de realizar raciocínio matemático formal complexo.
- AlphaEvolve: Descobre algoritmos informáticos mais eficientes que os criados por humanos, otimizando centros de dados e computação quântica.
- Co-cientistas de IA: Sistemas que analisam décadas de literatura científica em minutos para propor novas curas para doenças.
Rumo à Inteligência Artificial Geral (IAG)
Dez anos depois, o objetivo final — a IAG — já não parece ficção científica. Demis Hassabis acredita que a combinação da multimodalidade do Gemini com a capacidade de planeamento do AlphaGo é o caminho para uma “Era de Ouro” da descoberta.
O desafio agora é outro: não queremos apenas uma IA que ganhe um jogo, queremos uma IA que consiga inventar um jogo tão profundo como o Go. Queremos sistemas que não apenas resolvam problemas, mas que saibam quais as perguntas certas a fazer para resolvermos a energia limpa ou a longevidade humana.
O Movimento 37 foi o primeiro sinal de fumo. Hoje, estamos no meio do incêndio criativo da inteligência artificial. E, honestamente, nunca foi tão entusiasmante ser um observador desta evolução.
