A Anthropic, empresa de inteligência artificial (IA) que tem estado no centro das atenções pela prioridade que dá à segurança sobre a velocidade — o que já a levou a uma disputa com o Pentágono —, continua a usar essa mediatização para alertar para os riscos da tecnologia.

Desta vez foi através de um relatório publicado no início desta semana por investigadores da empresa, intitulado “Impactos da IA no Mercado de Trabalho”, do qual saiu um mapa detalhado dos empregos que a IA já está a desempenhar, por contraste com aqueles que poderá vir a assumir.

O mapa tem corrido as redes sociais, actualmente saturadas de memes e conteúdos virais sobre o potencial da IA para pôr fim ao mercado de trabalho tradicional, reflectindo uma ansiedade generalizada e um humor negro em relação ao futuro do trabalho.

A maioria dos líderes da indústria tende a concordar que uma grande revolução está ao virar da esquina. O próprio CEO da Anthropic, Dario Amodei, acredita que “os impactos económicos irão superar em muito os da Revolução Industrial” e que a tecnologia irá provocar um “choque” no mercado de trabalho que poderá já estar em curso.

O modelo de IA da Anthropic, o Claude, gerou nos últimos meses ondas de choque no sector tecnológico pela possibilidade de as suas competências de programação virem a engolir o propósito das gigantes de software — levantando o espectro de um apocalipse no sector de Software as a Service (SaaS).

Mas esse não é o único cenário sombrio que o avanço da IA promete. No estudo da Anthropic, os investigadores Maxim Massenkoff e Peter McCrory concluíram que, nas áreas de “colarinho branco” (termo que se refere a profissões de escritório que não exigem esforço físico, focando-se em trabalho mental, técnico ou corporativo), a adopção real da IA é ainda apenas uma fracção do que estas ferramentas serão de facto capazes de realizar. Teoricamente, a IA poderá executar quase 100% das tarefas nas áreas de finanças, gestão, programação e trabalho legal e administrativo.

Contudo, para já, na maioria destes sectores — com base em dados de utilização recolhidos pelo próprio Claude —, apenas uma pequena fracção do trabalho (entre 20% e 30%) está a ser feita por IA. Já profissões ligadas à agricultura, construção, saúde, serviços e transportes estão entre as menos expostas.

O estudo mostra que a IA “mal está a começar a explorar o seu potencial técnico”. Os investigadores atribuem este atraso a barreiras legais e limitações técnicas — restrições dos modelos, necessidade de ferramentas de software suplementares e revisão humana obrigatória. “Algumas tarefas teoricamente possíveis não aparecem no uso devido a limitações dos modelos. Outras difundem-se lentamente por restrições legais, requisitos de software específicos, passos de verificação humana ou outros obstáculos”, escrevem Massenkoff e McCrory, projectando que estas limitações são apenas temporárias.

Apocalipse no mercado de trabalho?

E, no entanto, mesmo apesar de ainda estarmos longe de uma adopção verdadeira da tecnologia, a pressão sobre os recém-licenciados à procura de trabalho nestas áreas já “é muito real”, escreve o Financial Times, falando numa “grande falta de empregos para licenciados”.

Segundo o jornal britânico, o mercado de trabalho para jovens licenciados tornou-se um pesadelo: as contratações globais mantêm-se 20% abaixo dos níveis pré-pandemia, a IA está a absorver grande parte do trabalho tradicionalmente atribuído a funções de entrada — marketing, comunicação, serviços de apoio ao cliente, funções administrativas — e as empresas, quando contratam, preferem candidatos mais experientes.

Perante o último relatório de emprego publicado pelo Governo norte-americano, “o crescimento lento do emprego e o aumento gradual do desemprego [verificado] sem uma verdadeira recessão” é algo sem precedentes, disse Lawrence Katz, professor de economia na Universidade de Harvard citado pelo New York Times. A outra anomalia prende-se com os trabalhos de “colarinho branco”, que têm sido “desproporcionalmente afectados”.

O Financial Times explica que uma reconfiguração da estrutura corporativa está em curso: “A pirâmide clássica, com muitos juniores na base, está a transformar-se num diamante, com menos entradas, uma camada intermédia de operadores especializados e uma cúpula mais pequena. O contrato social implícito — de que um bom percurso académico garante entrada no mercado de trabalho — está a desfazer-se.”

Numa entrevista ao mesmo jornal, Mustafa Suleyman, director de IA da Microsoft, foi ainda mais longe, estimando que “a maioria do trabalho de ‘colarinho branco’ será substituída num prazo de 12 a 18 meses”.

São estas as frases que circulam nas redes sociais e nos meios de comunicação social, onde também abundam os testemunhos de jovens recém-licenciados sobre o pesadelo que se tornou a procura de emprego. Ainda assim, apesar de existirem de facto milhares de postos de trabalho em risco, nem todos partilham a perspectiva de um apocalipse.

Para a The Economist, a IA vai remodelar o trabalho de “colarinho branco”, mas não vai eliminá-lo. A revista analisou mais de uma centena de grandes profissões nos EUA desde 2022 e concluiu que o emprego cresceu 4% e os salários reais 3%. O padrão repete o da revolução digital: os computadores não substituíram profissões inteiras, automatizaram as tarefas mais repetitivas e libertaram os trabalhadores para actividades de maior valor. A IA, vaticina a revista, fará o mesmo: “A tecnologia vai expandir o seu alcance e aumentar o seu valor.”

Se os próximos meses trarão um apocalipse do mercado de trabalho é algo que continuará em disputa. Contudo, “é quase certo que a IA vai transformar os trabalhos de escritório; a questão é até que ponto”. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, a maior instituição financeira norte-americana e um dos maiores bancos do mundo, reflecte a posição de quem observa o fenómeno com cautela sem o ignorar: “Não estou a prever que isso possa ser um problema. Estou simplesmente a dizer que agora é o momento de começar a pensar no que fazer se tal acontecer.”

A preocupação com as consequências sociais e políticas vai além dos mercados. Martin Wolf, comentador económico do Financial Times, alertou que se uma grande parte das “actividades de pensamento qualificado” for substituída por máquinas, o resultado poderá ser uma reacção catastrófica do ponto de vista político.

“Poderíamos ter uma crise social e política que tornaria a desindustrialização trivial. A desindustrialização abalou a classe trabalhadora. Abalar as perspectivas da classe média educada é socialmente muito mais perigoso e explosivo”, diz Wolf, resumindo que o perigo se deve ao facto de que as pessoas que estão mais expostas a esta disrupção são precisamente aquelas que identificamos como as elites, isto é, as pessoas que “gerem as nossas sociedades em quase todos os sentidos”.