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Nina Khrushcheva, bisneta de Nikita Khrushchev

O Ministério da Justiça russo declarou Nina Khrushcheva, professora numa universidade norte-americana e bisneta do líder soviético Nikita Khrushchev, como “agente estrangeira”. Para muitos russos, o bisavô foi o “traidor que entregou a Crimeia à Ucrânia” e arrasou a figura de Estaline.

De acordo com o comunicado oficial emitido esta sexta-feira pelo Ministério da Justiça da Rússia, Nina Khrushcheva é agora classificada como “agente estrangeira”.

A nota acusa a bisneta do antigo líder soviético Nikita Khrushchev de ter disseminado informações falsas sobre as autoridades russas, de se ter manifestado contra a “operação militar especial” na Ucrânia e de ter colaborado com outros “agentes estrangeiros”, participando na divulgação de materiais informativos.

Centenas de figuras da cultura, jornalistas e empresários, bem como órgãos de comunicação social e organizações, foram classificados como “agentes estrangeiros” desde que a Rússia introduziu essa classificação, em 2012, que é aplicada a pessoas consideradas inimigas do Estado.

Quem é rotulado como “agente estrangeiro” é obrigado a incluir uma longa declaração de exoneração de responsabilidade em todas as suas aparições e declarações públicas, incluindo publicações nas redes sociais, nota o The Moscow Times.

A mãe de Khrushcheva, Yulia, era neta de Nikita Khrushchev. Nasceu em Moscovo duas semanas depois de o bisavô ter deixado o poder, em outubro de 1964, e tem sido bastante crítica em relação à guerra na Ucrânia e ao chefe do Kremlin, Vladimir Putin.

Residente nos EUA desde 1991, ano da dissolução da União Soviética, é atualmente professora de relações internacionais numa universidade de Nova Iorque. Em 2024, publicou “Nikita Khrushchev: Um Líder Fora do Sistema“, em russo, com notas biográficas sobe o líder soviético que iniciou o degelo dentro e fora do país.

Khrushchev, que ocupou o cargo de secretário-geral da URSS desde a morte de Estaline, em 1953, até à sua demissão em 1964, é acusado pelos ultranacionalistas de ter entregue “ilegalmente” a península da Crimeia à então República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1954.

Wikimedia

José Estaline com Nikita Khrushchev em 1938

“Nikita”, como também era tratado, é talvez mais conhecido no Ocidente pelas fortes críticas ao seu antecessor, Josef Estaline, recorda o portal independente russo Meduza. A 25 de fevereiro de 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, o então líder soviético proferiu aquele que ficaria conhecido como o seu “Discurso Secreto”.

Com esta denúncia de Estaline e do seu “culto da personalidade”, pela primeira vez um alto responsável soviético descrevia publicamente o terror de Estado como resultado de abusos de poder e de violações da “legalidade socialista”.

Ainda assim, a condenação foi seletiva, salienta o Meduza. A verdadeira dimensão do terror e a cumplicidade do Partido Comunista nunca foram abordadas de forma aberta, e grande parte destas críticas viria mais tarde a ser revertida.

Apesar disso, o discurso de Khrushchev tornou-se um momento decisivo na história da URSS, assinalando uma rutura inequívoca com a era estalinista e o início de um período de relativa abertura conhecido como o “Degelo”.

Entretanto, a História foi dando algumas voltas. 60 anos após a entrega da Crimeia à Ucrânia, em 2014, a Rússia invadiu e anexou a península ucraniana. E em junho do ano passado, o fantasma de Estaline regressou a Moscovo, que inaugurou uma estátua do ditador numa das estações de metro mais movimentadas da cidade, em mais uma tentativa de reviver o legado do sanguinário ditador.

Na Rússia, dizia o correspondente da BBC em Moscovo, Steve Rosenberg, numa reportagem realizada no ano passado na capital russa, ninguém sabe o que o futuro reserva — mas também ninguém sabe o que o passado vai ser, porque, neste país, o passado está constantemente a mudar.


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