É que, por exemplo, desde que rebentou a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, o gasóleo disparou 50% nas praças internacionais, mas o mercado português só internalizou um aumento de 17% no preço por litro.

Segundo a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, o preço eficiente do gasóleo simples está ultrapassar esta semana os dois euros por litro, fixando-se em 2,044 euros, enquanto o da gasolina simples 95 se aproxima desse valor, situando-se em 1,929 euros por litro.

A subida acompanha o forte aumento das cotações internacionais – que nas últimas semanas levaram o gasóleo no mercado europeu de referência para níveis próximos de 1 150 dólares por tonelada e a gasolina para cerca de 950 a 1 000 dólares por tonelada.

A possibilidade de interrupção prolongada do tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz levou “traders”, refinarias e operadores logísticos a incorporar rapidamente um elevado prémio de risco geopolítico nas transações internacionais de combustíveis.

O gasóleo foi o produto petrolífero que registou a reação mais intensa nos mercados internacionais. Antes da escalada militar no Médio Oriente, no dia 28 de fevereiro, o gasóleo ultra-baixo em enxofre (ULSD 10 ppm), o indicador para Portugal, negociado no hub petrolífero da região ARA – que engloba Amesterdão, Roterdão e Antuérpia – era avaliado em torno de 750 a 780 dólares por tonelada.

Nas duas semanas seguintes, com o agravamento da guerra e os receios de interrupção das exportações provenientes do Golfo Pérsico, as cotações dispararam rapidamente. No início de março, os preços atingiram cerca de 1 165 dólares por tonelada, o que representa um aumento próximo de 55% em relação aos níveis anteriores ao conflito.

Segundo analistas do mercado energético, o gasóleo é particularmente sensível a choques geopolíticos porque desempenha um papel central em vários setores da economia, incluindo transporte rodoviário, agricultura, mineração e indústria pesada.

A interrupção das rotas marítimas no Estreito de Ormuz poderá retirar do mercado global entre 3 e 4 milhões de barris por dia de combustíveis destilados, agravando a pressão sobre os preços internacionais.

Gasolina acompanha

Embora o gasóleo tenha registado a maior subida, a gasolina também acompanhou a tendência de valorização nos mercados internacionais.

No final de fevereiro, as avaliações da gasolina no mercado do Noroeste da Europa situavam-se aproximadamente entre 700 e 720 dólares por tonelada. Com o agravamento da crise no Médio Oriente e a subida do preço do petróleo, as cotações aproximaram-se rapidamente de 950 a mil dólares por tonelada. A valorização reflete não apenas a subida do crude, mas também o receio de disrupções na cadeia logística global de combustíveis refinados.

Dados de mercado mostram que os contratos de referência para gasolina registaram subidas superiores a 30% no espaço de um mês, acompanhando o aumento da volatilidade nos mercados energéticos globais.

A Europa, e consequentemente Portugal, encontra-se entre as regiões mais vulneráveis e com um défice estrutural de gasóleo há vários anos, dependendo significativamente de importações para satisfazer a procura do setor dos transportes e da indústria.

Esta dependência intensificou-se após a redução das importações provenientes da Rússia nos últimos anos. Como consequência, os países europeus passaram a recorrer com maior frequência a cargueiros provenientes do Médio Oriente e da Ásia.

Com o encerramento ou a limitação da navegação no Estreito de Ormuz, os fluxos comerciais de combustíveis refinados provenientes do Golfo Pérsico ficaram ameaçados, obrigando compradores europeus a procurar alternativas mais distantes e dispendiosas. Esse movimento contribuiu para acelerar a escalada das cotações no “hub” ARA, um dos principais centros de formação de preços de combustíveis na Europa.

Margens das refinarias disparam

Outro fator que explica a subida dos preços é a forte expansão das chamadas margens de refinação, conhecidas no setor como “crack spreads”. Historicamente, o gasóleo costuma ser vendido cerca de 20 a 25 dólares por barril acima do preço do crude. No entanto, com o agravamento da crise geopolítica, essas margens chegaram a atingir valores entre 30 e 65 dólares por barril, refletindo a elevada procura por combustíveis destilados.

Este fenómeno levou muitas refinarias a aumentar a produção de destilados médios – como gasóleo e jet fuel – sempre que tecnicamente possível. Especialistas alertam que o gasóleo, em particular, é um dos combustíveis mais críticos para o funcionamento da economia, uma vez que está diretamente ligado aos custos de transporte e logística.

Caso os preços permaneçam elevados durante um período prolongado, o impacto poderá refletir-se numa subida generalizada dos custos de produção e distribuição de bens, aumentando o risco de inflação global, o chamado efeito de “inflação de custos”, encarecendo alimentos, bens industriais e transporte de mercadorias.