O Governo taliban acusou o Paquistão de ter lançado um ataque aéreo a um centro de reabilitação de toxicodependentes em Cabul, no Afeganistão, na noite desta segunda-feira. O porta-voz do Ministério do Interior, Abdul Mateen Qanie, afirmou, citado pela Reuters, que 408 pessoas morreram e 265 ficaram feridas na sequência da investida.
O Hospital de Tratamento de Dependência de Omar, na capital do país, com capacidade para albergar dois mil pacientes, foi atingido por um ataque aéreo às 21h locais de segunda-feira (menos 4h horas e meia em Lisboa), segundo Hamdullah Fitrat, porta-voz adjunto do Governo taliban do Afeganistão, tendo grande parte do edifício ficado destruído.
O Ministério da Informação do Paquistão negou a autoria do ataque, assumindo ter visado apenas “instalações militares” e “infra-estruturas de apoio ao terrorismo” em Cabul e na província de Nangarhar. Os residentes da zona do hospital afirmaram, no entanto, que naquele local anteriormente existia uma base militar, segundo a Reuters.
Várias testemunhas, citadas pelo The Guardian, descreveram o ambiente de destruição e morte no local. “Estava tudo a arder, as pessoas estavam a arder”, contou Haji Fahim, condutor de ambulância. Yousaf Rahim, que sobreviveu, apesar dos ferimentos, relatou que “dezenas morreram instantaneamente e os feridos graves imploravam por ajuda”. “Eu não sabia o que fazer, passei por cima de corpos e consegui escapar para o exterior”, acrescentou.
“Mentiras constantes” foi a maneira como o porta-voz do primeiro-ministro do Paquistão, Mosharraf Zaidi, caracterizou as acusações afegãs relativas ao ataque ao hospital. Segundo a Reuters, reforçou ainda que as “operações antiterroristas” do Paquistão continuariam enquanto fosse necessário para eliminar “os terroristas e as suas infra-estruturas”.
O conflito entre os dois países escalou no final do mês passado, com o bombardeamento de vários alvos do regime taliban nas principais cidades do Afeganistão, tendo o ministro da Defesa do Paquistão classificado o confronto como uma “guerra aberta”.
A 22 de Fevereiro, o Paquistão lançou ataques aéreos contra alvos militares no Afeganistão, seguidos de várias ofensivas contra as principais cidades do país. Estes ataques directos foram precedidos de intensos combates ao longo da fronteira entre os dois países, a chamada linha Durand, que nunca foi aceite pelo Afeganistão como fronteira legítima. Entre combates fronteiriços e ataques directos, contam-se já várias centenas de mortos e feridos.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, apelou à calma e à contenção dos dois países, reforçando a disponibilidade da China para ajudar na mediação do conflito e na redução das tensões. Já por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano, a condenação do ataque foi inequívoca, numa altura em que a Índia tem vindo a reforçar laços com o Governo taliban do Afeganistão, e a rivalidade com o Paquistão aumenta. Num comunicado oficial emitido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano, o Paquistão é acusado de estar a “tentar disfarçar um massacre com uma operação militar”.
No mesmo dia do ataque ao centro de reabilitação, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou unanimemente a Resolução 2818, estendendo a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) por mais três meses, até 17 de Junho de 2026. O secretário-geral da organização, António Guterres, já havia apelado à cessação imediata das hostilidades e à resolução de “quaisquer divergências por via diplomática” entre os dois países.
Texto editado por Paulo Narigão Reis