Para Trump, a vitória é principalmente simbólica. Tal como o Presidente salientou, Cuba tem sido uma “pedra no sapato” de Washington durante “toda a sua vida”. Acabar com o regime socialista cubano seria uma vitória ideológica para o legado que está a tentar construir no seu segundo mandato. “Para Trump é tudo sobre espetáculo e teatro, ele precisa de ter algo substancial para poder cantar vitória”, aponta Lillian Guerra, filha de pais cubanos que nasceu e viveu nos EUA. A retirada de Díaz-Canel seria, para Trump, um passo concreto mais do que um mero simbolismo, remata.
Já a vitória de Havana estaria no facto de, na verdade, a saída de Díaz-Canel não representar uma queda do regime. A possibilidade de “Raulito”, o neto e guarda-costas de Raúl Castro, assumir a liderança interina de facto do regime não foi excluída pelos norte-americanos. Porém, os especialistas apontam que, na prática, isto significa que o regime continuaria nas mesmas mãos, devido à sua estrutura centralizada. O Miami Herald, que também noticiou as negociações, destaca que Castro, apesar de não ter um papel formal no Governo, está envolvido na gestão do GAESA, o Grupo de Administração de Negócios gerido pelas Forças Armadas Revolucionárias que controla cerca 40% dos negócios da ilha. Ou seja, a manutenção do GAESA e da preponderâncias das Forças Armadas é o que mantém o regime, não a figura individual de Díaz-Canel, pelo que a sua saída pode ser vista como uma vitória por muitos dos interessados. Mas não por todos.
Quando a URSS desapareceu oficialmente, em 1991, a onda de choque fez-se sentir no mundo inteiro. Do outro lado do globo o choque foi particularmente forte: a União Soviética não era apenas o principal parceiro ideológico, mas também o principal apoio económico de Cuba. Trinta anos depois, Cuba está novamente afundada numa crise económica. “É de muitas formas pior que a crise dos anos de 1990, mas com a desvantagem adicional que a presença carismática e culto de personalidade bem cultivados de Fidel Castro desapareceram com ele”, aponta o historiador Andrés Pertierra, filho de pais cubanos e licenciado na Universidade de Havana.
Lillian Guerra, crítica do regime cubano, aponta a capacidade discursiva de Fidel, capaz de “falar por horas e explicar os ‘comos’ e os ‘porquês’ da sua governação” como o seu ponto forte, que o tornava confiável junto do povo cubano. Miguel Díaz-Canel é, neste aspeto, uma figura completamente oposta — o que ficou visível na reação surpreendida à rara conferência de imprensa mais aprofundada que deu na passada sexta-feira. Além da falta de comunicação ou transparência, o Presidente cubano enfrenta outras limitações: “Não tem nem um mandato democrático, nem a legitimidade de ter lutado na Sierra Maestra na década de 1950, nem o apelido Castro”, elenca Andrés Pertierra.