Três semanas depois de os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão terem desencadeado um conflito que os tornou alvos de bombardeamentos sistemáticos da República Islâmica iraniana, a paciência dos Estados do Golfo parece estar a esgotar-se.
Num encontro em Riad, em que se reuniram vários homólogos de países árabes e parceiros regionais, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, Faisal bin Farhan, afirmou que a confiança no Irão foi “completamente destruída” e avisou a liderança iraniana de que o pior ainda pode estar por vir.
“O reino não vai ceder à pressão. Pelo contrário, essa pressão terá o efeito contrário… e, como já afirmámos muito claramente, reservamo-nos o direito de tomar medidas militares, caso tal seja considerado necessário”, afirmou o ministro do país mais poderoso do Golfo, citado pela emissora turca TRT World.
“O Irão está enganado se acredita que os Estados do Golfo são incapazes de responder”, acrescentou Faisal bin Farhan, citado pela Saudi Gazette nesta quinta-feira, em que o conflito entrou numa nova fase de escalada, devido aos dois ataques consecutivos iranianos à infra-estrutura de produção de gás natural liquefeito (GNL) de Ras Laffan, no Qatar, como retribuição por uma investida israelita sobre o campo de gás iraniano de South Pars.
Trata-se do maior campo de gás do mundo, de onde sai a maioria do GNL que abastece os países asiáticos, e o Qatar avisou que, devido aos estragos, cerca de 17% da sua produção estará comprometida nos próximos anos.
Na conferência que se seguiu à reunião com os outros ministros dos Negócios Estrangeiros, Faisal bin Farhan não quis dizer se e quando os Estados do Golfo responderão ao Irão, mas deixou claro que todos dispõem de “recursos e capacidades muito significativos que poderão mobilizar caso decidam fazê-lo”, relata a Al Jazeera.
“A paciência que temos demonstrado não é ilimitada. Pode ser um dia, dois dias ou uma semana; não vou dizer”, respondeu o príncipe saudita, de acordo com a Al Arabiya.
Além do ataque a Ras Laffan, nas últimas horas houve também registo de ataques a refinarias do Kuwait e da Arábia Saudita – incluindo a refinaria da Saudi Aramco junto ao Porto de Yanbu, no mar Vermelho, que representa actualmente o único canal de exportação de crude da região, devido ao controlo iraniano do estreito de Ormuz.
De acordo com o Times of Israel, a Saudi Aramco garantiu que os danos foram mínimos.
Na reunião em Riad (que aconteceu um dia depois de a Arábia Saudita ter dito que interceptou um míssil balístico que se dirigia para o seu quarteirão diplomático), participou uma dúzia de países árabes e muçulmanos: Qatar, Azerbaijão, Bahrein, Egipto, Jordânia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Arábia Saudita, Síria, Turquia e Emirados Árabes Unidos.
Todos condenaram os “ataques deliberados do Irão com mísseis balísticos e drones [aos países vizinhos], que visaram zonas residenciais, infra-estruturas civis, incluindo instalações petrolíferas, centrais de dessalinização, aeroportos, edifícios habitacionais e instalações diplomáticas”.
Num comunicado que serviu para criticar o Irão, mas também a actuação do Hezbollah, tal como os ataques de Israel no Líbano e a sua “política expansionista na região”, os altos diplomatas disseram que vão definir “posições comuns” e adoptar “medidas e procedimentos legítimos necessários para proteger a sua segurança, estabilidade e soberania, e pôr termo aos ataques hediondos do Irão aos seus territórios”.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros salientaram igualmente o direito dos Estados de se defenderem, em conformidade com o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas.
Mas não é apenas o Irão que é visto como o vilão desta guerra. O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, declarou hoje que Israel é responsável por arrastar o Médio Oriente para uma “crise sem precedentes”.
O ministro, que segundo o Turkiye Today realizou esta quinta-feira uma digressão diplomática por vários países com o objectivo de encontrar uma solução que evite o agravamento deste conflito regional, encontrou-se com altos responsáveis do Qatar em Doha.
“A Turquia está ao lado do Qatar”, assegurou Fidan, numa conferência de imprensa ao lado do primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, que na quarta-feira, antes dos ataques ao campo de gás, já havia expulsado do país os adidos militar e de segurança da embaixada iraniana em Doha.