Veja como foi o jantar do Globo de Ouro no Brasil

1:27

A mesa estava impecável no Copacabana Palace na noite da última quarta-feira, 18, para receber os convidados do Golden Globes Tribute Gala. Arranjos de rosas cor-de-rosa sobre toalha branca engomada, taças de cristal alinhadas com precisão, cartões do menu com o logo dourado do Globo de Ouro impressos sobre papel creme. O Moët & Chandon já estava aberto, o serviço era atento e discreto, e o salão do Copacabana Palace fazia o que sempre faz bem: criar a sensação de que aquela noite era especial. Porque era.

A mesa da gala do Golden Globes Tribute Awards Foto: Matheus Mans/Estadão

Nas mesas, grandes nomes da dramaturgia brasileira: Antônio Fagundes, Antonio Pitanga, Thaís Araújo, Marisa Orth, Vera Fischer, Suely Franco e por aí vai. E o cardápio seguiu uma gramática conhecida de quem frequenta premiações internacionais: entrada leve, proteína nobre ao centro, sobremesa de chocolate.

A entrada foi uma mini alface com queijo creme, figos grelhados e redução de balsâmico — elegante, leve, o tipo de prato que abre o apetite sem disputar atenção com a conversa. O prato principal oferecia duas opções: robalo com vegetais mediterrâneos ou filé mignon com cogumelos, aspargos grelhados e purê de batata-baroa. A sobremesa, uma ópera de cacau com sorvete de chocolate e nibs de pralinê. Três etapas bem encadeadas, com um serviço que manteve o ritmo da noite sem nenhum deslize visível.

O robalo com vegetais mediterrâneos servido no Copacabana Palace para o Globo de Ouro Foto: Matheus Mans/Estadão

Quem conhece o circuito de galas cinematográficas vai reconhecer a lógica. No jantar do próprio Globo de Ouro em Beverly Hills, o cardápio costuma seguir exatamente esse padrão — proteína grelhada, legumes al dente, sobremesa de chocolate com algum toque técnico. É uma fórmula desenhada para não ofender ninguém, escalar para centenas de pratos simultâneos e manter a cozinha no controle. Funciona. Mas é também uma fórmula que poderia ter sido executada em qualquer hotel de luxo do mundo.

O robalo estava bem preparado. Mas acompanhado de vegetais mediterrâneos — numa cidade com o maior mercado de peixes frescos da América do Sul. O filé mignon com purê de batata-baroa chegou perto de algo mais autoral: a batata-baroa é raiz tipicamente brasileira e poderia ter puxado o cardápio inteiro numa direção mais interessante. Ficou como detalhe discreto num prato que, no resto, poderia estar num jantar em Paris ou em Cingapura.

O tapete vermelho do Golden Globes no Copacabana Palace, zona sul do Rio de Janeiro  Foto: Pedro Kirilos/Estadão

As porções, como é padrão no circuito de galas, eram contidas. Suficientes para quem jantar antes — o que, em se tratando de um evento que durou horas, nem sempre é o caso.

O que poderia ter sido

A cozinha brasileira oferece repertório amplo para uma noite como essa. Não faltariam caminhos que equilibrassem sofisticação e identidade: um ceviche com leite de coco e tucupi, um filé com farofa de castanha-do-pará, uma sobremesa com cupuaçu ou maracujá. O próprio Copacabana Palace tem histórico de executar esse tipo de menu com excelência.

A escolha por um cardápio neutro e seguro não foi um erro de execução — foi uma decisão compreensível para um evento dessa escala. Mas numa noite em que o discurso, os homenageados e o próprio propósito giravam em torno da riqueza cultural brasileira, a mesa ficou um passo atrás dessa conversa. Helen Hoehne, presidente do Globo de Ouro, disse na abertura que histórias brasileiras são “repletas de paixão e riqueza cultural”. O jantar poderia ter dito o mesmo — e quase disse.