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Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, embora os consumidores tenham sentido preços mais elevados nos combustíveis, os retalhistas não aumentaram as suas margens de lucro. Mas por que motivo reduziriam os retalhistas as suas margens quando os preços disparam?

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão, no final de fevereiro, provocaram uma subida imediata nos preços do petróleo, e a volatilidade só tem aumentado desde então.

Rapidamente surgiram receios entre os automobilistas de “especulação de preços” — retalhistas de combustíveis a inflacionarem os preços para tirarem partido do pânico dos consumidores.

No Reino Unido, a Ministra das Finanças, Rachel Reeves, pediu à Autoridade da Concorrência e dos Mercados (CMA) que se mantivesse em “alerta máximo” quanto a práticas abusivas por parte dos retalhistas de combustíveis.

A associação do setor, a Petrol Retailers Association, reagiu de imediato, afirmando que a linguagem utilizada era “incorreta e inflamatória”.

Mas o que sugere a evidência económica sobre o comportamento dos retalhistas em períodos de forte oscilação dos preços do petróleo?

No âmbito de um estudo sobre os retalhistas de combustíveis no Reino Unido e os grandes choques nos preços do petróleo, Nikhil Datta e Johannes Brinkmann, professores de economia da Universidade de Warwick, no Reino Unido, examinaram a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

A invasão provocou um aumento significativo e súbito dos preços globais do petróleo, proporcionando um contexto valioso para analisar de que forma os choques na oferta de crude se repercutem nos preços praticados nas bombas de abastecimento.

O primeiro padrão claro que Datta e Brinkmann encontraram foi que as variações nos preços da gasolina sem chumbo e do gasóleo acompanharam de perto as variações nos preços do crude. Quando os preços do petróleo subiam, os preços por grosso dos combustíveis aumentavam quase de imediato, explicam os dois investigadores num artigo no The Conversation.

Segundo as estimativas dos dois investigadores, cerca de 80% das variações nos preços do petróleo refletem-se nos preços por grosso dos combustíveis em poucos dias.

Os preços a retalho, contudo, reagem de forma bastante diferente. Os preços na bomba ajustaram-se mais lentamente e apresentaram variações consideravelmente mais suaves do que os preços por grosso. Nos períodos em que os preços por grosso subiram acentuadamente, os preços a retalho aumentaram tipicamente menos e com um desfasamento temporal.

No pico imediato do choque, nas semanas que se seguiram à invasão, os preços por grosso do gasóleo subiram cerca de 40 cêntimos por litro, enquanto os preços na bomba aumentaram apenas cerca de 18 cêntimos por litro.

A implicação é que as margens dos retalhistas foram comprimidas durante os picos de preços, à medida que o diferencial entre os preços a retalho e por grosso se estreitava temporariamente.

Ou seja, embora os consumidores tenham sentido preços mais elevados nos combustíveis, a evidência não sugere que os retalhistas tenham aumentado as suas margens de lucro durante estes períodos.

Mas por que motivo reduziriam os retalhistas as suas margens quando os preços disparam? Uma explicação é que os consumidores se tornam mais atentos aos preços dos combustíveis nessas alturas.

Utilizando dados do site de comparação de preços PetrolPrices.com, Datta e Brinkmann verificaram que, quando o preço médio da gasolina ultrapassou 1,50 libras por litro em 2022, a atividade de pesquisa aumentou drasticamente.

O crescente número de pesquisas diárias indicava que os consumidores procuravam ativamente postos de abastecimento mais baratos quando os preços subiam.

A ultrapassagem do limiar de 1,50 libras atraiu igualmente a atenção dos meios de comunicação social, aumentando a consciencialização das pessoas e incentivando os consumidores a compararem preços.

Através de dados geograficamente detalhados sobre a atividade de pesquisa, combinados com dados diários de preços de combustíveis de praticamente todos os postos de abastecimento no Reino Unido, Datta e Brinkmann conseguiram estabelecer uma relação causal entre este aumento da atenção dos consumidores e a intensificação da concorrência nos preços.

À medida que os preços começaram a estabilizar, constataram que a intensidade das pesquisas no site de comparação de preços diminuiu. A atividade de pesquisa não regressou, em si mesma, aos níveis anteriores ao choque, mas antes desceu e estabilizou num patamar superior ao de antes, o que é consistente com as previsões de modelos económicos bem estabelecidos.

De forma correspondente, os impactos nos preços atenuam-se ao longo do tempo. No pico de atividade de pesquisa após a invasão russa da Ucrânia, um aumento de 10 pontos percentuais na atividade de pesquisa estava associado a uma redução de aproximadamente 2% nos preços locais da gasolina.

Datta e Brinkmann verificaram depois que este efeito era impulsionado sobretudo pelos postos que já praticavam preços mais elevados em janeiro de 2022. Estes postos com preços mais altos foram os que mais reduziram os seus preços à medida que os consumidores se tornavam mais sensíveis ao preço.

O estudo sugere que, quando os preços do petróleo sobem e há grande atenção mediática, os consumidores dedicam mais esforço à procura de melhores preços. A concorrência intensifica-se então e exerce uma pressão descendente sobre os preços a retalho.

Assim, os retalhistas podem, na realidade, registar uma redução das margens quando os preços do petróleo disparam.

No seu conjunto, as conclusões de Datta e Brinkmann apontam para uma ilação clara: os retalhistas de combustíveis não parecem lucrar de forma abusiva nos períodos em que os preços do petróleo estão a subir rapidamente. Pelo contrário, as suas margens tendem a ser comprimidas.

Se as preocupações com lucros excessivos forem justificadas, a evidência sugere que é mais provável que tal ocorra quando os preços do petróleo estão a descer do que quando estão a disparar.


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