Numa altura em que a tecnologia se infiltra discretamente em quase todos os aspetos do quotidiano, os tribunais começam a enfrentar um novo tipo de desafio. Num caso recente, em Londres, dispositivos aparentemente inofensivos, como óculos inteligentes ligados a um smartphone, foram usados para contornar regras fundamentais do sistema judicial.

A juíza Raquel Agnello KC, do Tribunal de Insolvência e Sociedades (em inglês, ICC) do Reino Unido, redigiu o relatório sobre o incidente após este ter ocorrido em janeiro, tendo o blog de investigação jurídica britânico Legal Futures sido o primeiro a noticiá-lo.

O caso dizia respeito à liquidação de uma empresa lituana co-detida por um homem chamado Laimonas Jakštys, que compareceu em tribunal para retirar a sua empresa de uma lista de insolvência e para voltar a assumir o seu controlo.

O que chamou a atenção não foi o caso em si, mas a forma como Jakštys parecia responder às perguntas.

Imagem ilustrativa de uns óculos inteligentes

Sendo um produto ainda de nicho, os óculos inteligentes são dispositivos wearable que integram tecnologia como câmaras, microfones, altifalantes e ligação à Internet diretamente numa armação convencional. Permitem, por exemplo, fazer chamadas, ouvir áudio, gravar vídeo, aceder a assistentes virtuais ou até visualizar informação em tempo real sem recorrer ao telemóvel.

Óculos inteligentes foram úteis em tribunal

Segundo um acórdão escrito, a juíza do ICC, Raquel Agnello KC, notou logo na contra-interrogação que Jakštys fazia pausas frequentes antes de responder a perguntas que lhe eram dirigidas.

Essas pausas tornaram-se suficientemente longas para que a advogada de defesa, Sarah Walker, levantasse a preocupação de que ouvia interferência na área em redor da testemunha e solicitasse a remoção dos óculos, observando que existem óculos inteligentes capazes de comunicação áudio.

Depois disso, a intérprete lituana, por via da qual estava a ser feito o depoimento, relatou que ouvia vozes a sair dos próprios óculos, levando a juíza a identificá-los como óculos inteligentes e a ordenar que fossem retirados.

A juíza Agnello registou que, depois de os óculos terem sido removidos e enquanto a intérprete traduzia outra pergunta, o telemóvel de Jakštys começou subitamente a emitir uma voz a partir do bolso interior do casaco.

O tribunal observou que o áudio correspondia claramente a alguém a falar com Jakštys e ordenou que tanto os óculos inteligentes como o telemóvel fossem entregues ao seu advogado.

Jakštys negou ter recebido respostas através dos óculos e que os óculos estivessem ligados ao seu telemóvel enquanto prestava depoimento.

Contudo, no dia seguinte, quando apareceu em tribunal a usar novamente os óculos inteligentes, foi-lhe dito para os desligar.

Óculos inteligentes da Ray-Ban com a Meta

Óculos inteligentes da Meta em parceria com a Ray-Ban

Depoimento foi rejeitado

Entretanto, os seus registos telefónicos indicavam múltiplas chamadas de um contacto guardado com o nome “abra kadabra”, várias das quais coincidiram com períodos em que Jakštys estava a depor.

Quando questionado, afirmou que “abra kadabra” se referia a um taxista, mas não conseguiu explicar porque tantas chamadas ocorreram enquanto prestava depoimento, respondendo apenas que não se lembrava, uma resposta que a juíza observou ter sido dada com frequência.

Segundo ele, durante o processo, o seu telemóvel ter-lhe-ia sido roubado. Contudo, não conseguiu fornecer um relatório policial que o corroborasse.

O padrão de chamadas repetidas para um dispositivo emparelhado durante o testemunho, combinado com o comportamento de encaminhamento de áudio observado, levou o tribunal a concluir que ele estava a ser assistido ou orientado em tempo real.

No acórdão escrito, a juíza Agnello considerou que os óculos inteligentes estavam “claramente ligados” ao telemóvel e que uma chamada estava ativa durante a contra-interrogação até que o telemóvel fosse removido fisicamente.

Além disso, concluiu que o seu depoimento era “pouco fiável e não verdadeiro”, não apenas por causa da orientação, mas porque não aceitou que o conteúdo das suas declarações refletisse o seu próprio testemunho.

Como resultado, rejeitou na íntegra o seu depoimento, tratando a orientação como uma violação fundamental da integridade do processo, em vez de uma irregularidade periférica.

 Ele mentiu relativamente à forma como utilizou os óculos inteligentes e ao facto de ter recebido instruções através desses óculos. Na minha opinião, com base no que ocorreu em tribunal, é evidente que foi feita uma chamada, ligada aos seus óculos inteligentes, e que esta continuou durante o seu depoimento até que o telemóvel lhe foi retirado.

Quando questionado sobre isto, a sua explicação foi que pensava que tinha sido o ChatGPT que fez com que a voz fosse ouvida a partir do seu telemóvel assim que os óculos inteligentes lhe foram retirados. Isso carece de qualquer credibilidade.

O acórdão não tentou identificar quem estava do outro lado da linha, considerando isso desnecessário, uma vez que a existência de orientação foi estabelecida pelo comportamento do dispositivo e pelas respostas dele.