A promessa de uma guerra “rápida e decisiva” contra o Irão morreu ao fim de três semanas. Confrontados com uma estratégia de atrito que Trump não previu, os EUA veem-se agora presos num impasse, porque para o regime de Teerão vencer esta guerra significa, simplesmente, não a perder

Ainda a ofensiva não tinha começado e o presidente norte-americano, Donald Trump, já garantia: qualquer ação ofensiva contra o Irão seria “rápida e decisiva”. E era isso que se esperava daquela que era a maior frota americana desde a guerra do Iraque. Só que, na guerra, a primeira vítima é sempre o plano. E o plano americano estava prestes a colidir com uma estratégia iraniana de três frentes com o objetivo de tornar insuportável o custo de uma ação militar. Três semanas depois, não só o regime iraniano continua por colapsar, como os EUA estão a equacionar seriamente o envio de militares para o terreno.

“Os iranianos têm uma estratégia delineada há mais de 20 anos, é uma estratégia assimétrica. Enquanto os EUA e Israel têm uma estratégia assente na força do poder militar, o Irão tem uma estratégia ligada ao poder comunicacional — criar perceções que tenham impacto do ponto de vista político interno dos outros países. E isso parece estar a funcionar”, explica o tenente-general Marco Serronha.

A primeira frente desta estratégia foca-se no desgaste direto e emocional do adversário. Teerão sabe que não tem capacidades fortes o suficiente para fazer frente à poderosa frota americana, mas o regime dos aiatolas conhece bem a intolerância da opinião pública americana às guerras que se arrastam no tempo e ao peso emocional de ver caixões a regressar ao país, vindos de um lugar e de um conflito que muitos não compreendem. “Numa primeira fase, o plano passa por atacar o máximo possível Israel e provocar baixas americanas. Esse efeito é muito pesado do ponto de vista psicológico”, considera Marco Serronha.

É por esse motivo que um dos principais alvos do Irão têm sido as bases norte-americanas espalhadas na região. Em apenas três semanas, 13 soldados americanos morreram e mais de 200 ficaram feridos. Do lado israelita, apenas dois soldados perderam a vida, mas mais de duas dezenas de civis morreram, numa altura em que o Irão começa a intensificar os ataques contra áreas civis para gerar desgaste psicológico. Isto permite ao regime iraniano manter um ritmo de alerta permanente que rouba a iniciativa mediática aos adversários, mantendo a guerra propositadamente em “baixa intensidade”.

Se a primeira fase do plano passa por criar pressão interna no país inimigo, a segunda foca-se em fazer com que a pressão passe a vir de fora. E, para isso, a Guarda Revolucionária iraniana tem como alvo os aliados regionais dos Estados Unidos, com ataques contínuos contra infraestruturas energéticas, aeroportos, cidades e embaixadas.

“O Irão vai continuar a agir assimetricamente e a alvejar alvos nos vizinhos. É uma das poucas cartas que tem para jogar: levar os países árabes a ceder”, afirma o analista de estratégia Tiago Almeida Vasconcelos. O efeito desta tática já se faz sentir nas capitais do Golfo, onde o entusiasmo inicial deu lugar a uma certa apreensão económica. “Começa a existir a dúvida no mundo árabe sobre se as bases militares dos EUA estão nos seus territórios para eles estarem mais seguros ou para estarem mais inseguros”, acrescenta o especialista.

Esta “atmosfera de insegurança” é alimentada pela capacidade iraniana de manter a ameaça constante, mesmo sob bombardeamento. Segundo o major-general Jorge Saramago, o Irão “continuará a ter até ao final do conflito capacidade para atingir com mísseis e drones o território dos vizinhos e os interesses americanos”. O objetivo é claro: fazer com que os parceiros árabes, asfixiados pelos prejuízos e pelo medo, coloquem o peso da diplomacia sobre Donald Trump para que este ponha fim à guerra. Ainda assim, nem todos os países do Golfo estão a ter a mesma reação. De acordo com o jornal New York Times, o líder saudita, o príncipe Mohammed bin Salman, está a pressionar o presidente americano para aproveitar o que diz ser “uma oportunidade histórica” de refazer a região. 

A terceira fase é a mais temida alavanca da resistência iraniana e aquela que nos atinge a todos: o estrangulamento da economia global. Para isso, o regime iraniano utiliza a geografia a seu favor, transformando o Estreito de Ormuz num ponto de asfixia para uma região que exporta 20% de todo o petróleo do mundo. E, para isso, não é preciso afundar a frota americana ou colocar navios a travar o estreito. A simples ameaça de ataques, que podem vir por drones aéreos ou navais, é o suficiente para fazer disparar o custo dos seguros de navegação e catapultar o preço da matéria-prima que sustenta a economia global. O resultado? O regresso da subida de preços para os consumidores ocidentais.

“Desta vez bastou fazer a ameaça e isso é um elemento de ação estratégico que tem um impacto muito grande na economia mundial”, observa Marco Serronha. Esta capacidade de paralisia revela o que alguns especialistas apontam como uma negligência grave no planeamento da Casa Branca.

Para José Tomaz Castello-Branco, especialista em Médio Oriente, a falta de uma estratégia clara por parte da Casa Branca é o maior risco. “Devemos ficar preocupados quando ouvimos o presidente americano dizer que ninguém ponderou o fecho do Estreito de Ormuz. É preocupante imaginar que a maior potência do mundo inicia uma operação desta envergadura sem ponderar as alavancas óbvias que o Irão ia puxar”, observa.

Para sustentar esta estratégia de três frentes durante semanas — ou mesmo anos —, o Irão não depende de uma força aérea convencional. O país desenvolveu os famosos drones Shahed, através de um processo de engenharia reversa, de um motor alemão, produzindo uma das mais conhecidas e destrutivas armas do campo de batalha moderno. Estes drones, amplamente utilizados pelos russos na Ucrânia, são uma alternativa de “baixo custo e alto impacto”, que podem ser produzidos aos milhares por um custo bastante reduzido.  

Nem mesmo os pesados ataques americanos e israelitas parecem ter conseguido travar a produção contínua destes drones. Com a ajuda da China e da Rússia, Teerão conseguiu manter as suas linhas de montagem ativas graças a um fluxo constante de componentes destes países, contornando décadas de sanções internacionais.

“Os americanos avaliaram o risco, mas não estavam habituados a lidar com drones nesta escala. Tanto que tiveram de pedir ajuda à Ucrânia para perceber como os travar”, sublinha Marco Serronha. O problema para o Pentágono não é a sofisticação destas armas, mas a sua quantidade e origem. O Irão “espalhou a produção ao máximo” por todo o território e por bases subterrâneas, tornando impossível para os ataques aéreos americanos eliminarem a ameaça com um único golpe.

Para fazer frente a esta ameaça, os americanos respondem com a utilização de alguns dos sistemas de defesa antiaérea mais avançados do mundo, como os sistemas Patriot. Só que ao contrário dos Shahed, que têm um custo estimado de dez mil euros por unidade, o míssil intercetor PAC-3 custa aproximadamente quatro milhões de euros, o que torna esta luta bastante desigual. Para piorar, estima-se que são produzidos 600 destes mísseis por ano, ao passo que as fontes ocidentais acreditam que o Irão é capaz de produzir mil drones por mês.

A isto junta-se um stock de mísseis balísticos que, embora degradado pelos bombardeamentos, mantém uma capacidade de lançamento persistente. “O Irão continuará a ter, até ao final do conflito, capacidade para atingir com mísseis e drones o território dos vizinhos”, reforça o major-general Jorge Saramago. Esta produção descentralizada e o apoio externo transformam o Irão numa espécie de “Ucrânia do Médio Oriente”, resistindo aos ataques de um adversário militarmente superior mas causando fortes danos e arrastando o conflito no tempo.

Só que numa guerra de atrito, o tempo corre de forma diferente para ambos os lados. Washington procura uma vitória rápida para evitar o desgaste político, mas Teerão para obter uma vitória basta não sofrer uma derrota. Para o regime dos aiatolas, vencer não significa derrotar a frota americana, mas simplesmente garantir que, quando a poeira assentar, mesmo que eles continuem lá, o mundo está demasiado cansado para voltar a tentar.