Tudo Me Lembra de Ti falha este clássico encontro que o cinema americano aprimorou em tempos idos: entre títulos de grotesco quilate, extravagantes e até incongruentes, e uma densidade melodramática arrojada, enlouquecida mesmo, mas que estendia as suas raízes até territórios da profunda análise familiar, social e psicológica.
Ou seja, quando a “Americana”, género intrinsecamente nostálgico, celebratório, se transformava em luxuriante pesadelo.
Basta exemplificar de forma comedida: Leave Her to Heaven/Amar foi a Minha Perdição (1945); All That Heaven Allows/O que o Céu Permite (1955).
Isto é: a base pulp, o material de soap opera, neste caso o romance de Colleen Hoover — autora de best-sellers em tempo de TikTok, portanto, de livros virais, que também intervém na adaptação cinematográfica — não tinha necessariamente de ser, muito pelo contrário, uma contrariedade. O lixo pode bem ser a base do luxo.
Mas de facto não é John M. Stahl ou Douglas Sirk — ou o Fassbinder de O Medo Come a Alma (1974) — quem quer. Até porque primeiro seria preciso saber quem foram Stahl e Sirk. Ou mesmo Fassbinder. “Saber” não significa coleccionar, implica experimentar, entrar. Sobretudo, era preciso que a cineasta — Vanessa Caswill — estivesse ainda na posse de um património e de uma sabedoria: como filmar os corpos e o espaço e provocar com eles uma tempestade, em qualquer dos casos, uma sublevação lírica.
Isso foi algo de que o cinema americano se começou a esquecer, como quem se esquece de si próprio, nos idos de 1980, década de últimos exemplares de uma estirpe. Como At Close Range/Homens à Queima-Roupa, de James Foley, com argumento de Nicholas Kazan, filho, pois é claro, de Elia, que tem tudo a ver com isto.
Mas chega. É demasiada areia para esta camioneta. Tudo Me Lembra de ti — uma ex-presidiária regressa ao local não do crime, mas do desastre, para encontrar a filha que perdeu — é de uma previsibilidade tal que faz o espectador sentir-se na posse de talentos mediúnicos. Sem precipitações: o arreigado naturalismo dos actores, a banalidade das marcações e do fluxo de planos vedam qualquer interferência da transcendência. O happy end é só mesmo o fim.
Na era do BookTok, o céu e a terra trocaram de facto de lugar. Também o telefilme está à solta na sala; e o cinema está undercover na plataforma.
Realização: Vanessa Caswill
Actor(es): Maika Monroe, Jennifer Robertson, Bradley Whitford, Tyriq Withers