Uma cientista explicou em detalhes o que o filme “Devoradores de Estrelas” acerta e onde se distancia da realidade científica ao abordar conceitos de astrofísica. Baseado no best-seller de Andy Weir, o longa acompanha Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling, um professor que acaba se tornando astronauta e é enviado em uma missão desesperada para salvar a Terra após o Sol começar a perder brilho.

Durante a jornada, Grace viaja até a estrela Tau Ceti, localizada a cerca de 11,7 anos-luz de distância, e acaba formando uma improvável amizade com um alienígena chamado Rocky, peça-chave para o sucesso da missão. Apesar do sucesso do filme nas bilheteiras, a cosmóloga observacional Jacqueline McCleary, da Northeastern University, apontou que a produção mistura boas ideias científicas com licenças criativas.

Os principais problemas

Entre os principais problemas apontados pela cientista, destaca o Daily Mail, está o conceito central da trama: os chamados “astrophages“, organismos fictícios capazes de absorver energia estelar a ponto de causar o escurecimento do Sol. Inspirada em microrganismos terrestres que utilizam a luz como fonte de energia, a ideia esbarra em um obstáculo fundamental.

Segundo McCleary, há uma diferença gigantesca de escala entre o que um organismo microscópico poderia armazenar e a quantidade de energia emitida pelo Sol. A cada segundo, a estrela libera uma quantidade colossal de energia, muito além da capacidade de qualquer forma de vida concebível. Além disso, esses organismos teriam que sobreviver na atmosfera solar, onde as temperaturas podem ultrapassar milhões de graus Celsius, um ambiente completamente incompatível com qualquer forma de vida conhecida.

Outro ponto criticado é o longo coma induzido ao qual Grace é submetido durante a viagem espacial. No filme, ele permanece nesse estado por anos, enquanto percorre a imensa distância até Tau Ceti. Na realidade, explica a cientista, comas induzidos são procedimentos extremamente delicados e geralmente duram apenas dias ou, no máximo, algumas semanas. Períodos prolongados aumentam drasticamente o risco de danos cerebrais severos ou morte. Embora existam casos raros de pessoas que despertaram após décadas, essas situações são exceções e não refletem uma prática segura ou viável para missões espaciais.

Ryan Gosling em cena de ‘Devoradores de estrelas’ – Crédito: Divulgação Acertos do longa

Apesar dessas falhas, o filme também apresenta acertos surpreendentes. Um dos mais interessantes está na concepção do alienígena Rocky. Diferente dos padrões mais comuns do cinema, que frequentemente humanizam formas de vida extraterrestres, Rocky é retratado como uma criatura com biologia completamente distinta, adaptada a condições extremas. Segundo McCleary, essa abordagem é mais coerente com hipóteses atuais da astrobiologia, que consideram a possibilidade de formas de vida baseadas em químicas e ambientes totalmente diferentes dos terrestres, incluindo até a ideia de estruturas baseadas em plasma.

A forma de comunicação do alienígena também chama atenção pelo realismo. Em vez de compartilhar uma linguagem universal, como ocorre em muitas obras de ficção científica, Rocky se comunica por meio de sons incomuns e quase musicais, obrigando o protagonista a desenvolver um sistema de tradução do zero. Especialistas destacam que essa representação é mais plausível, já que formas de vida originadas em ambientes distintos provavelmente teriam modos de comunicação radicalmente diferentes dos humanos.

Design da espaçonave

Outro elemento que se aproxima da realidade científica é o design da espaçonave. No filme, o veículo possui um sistema de propulsão traseiro tradicional e uma seção frontal capaz de girar, criando gravidade artificial por meio da rotação. Embora ainda não exista uma nave com esse formato, o conceito é baseado em princípios físicos bem estabelecidos e já discutidos por engenheiros aeroespaciais como uma solução viável para missões de longa duração.

No balanço geral, embora “Devoradores de Estrelas” exagere em alguns conceitos para sustentar sua narrativa, o filme mantém uma coerência interna que o torna convincente dentro de seu próprio universo. E, no caso da espaçonave, McCleary destaca que o projeto foi desenvolvido a partir de ‘física totalmente convencional e bem aceita’.


Giovanna Gomes

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.