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Elon Musk, fundador da Starlink

Fevereiro foi o primeiro mês desde 2023 em que Kiev reconquistou mais território dentro da Ucrânia do que aquele que perdeu. Sem acesso ao Starlink, forças russas recorrem cada vez mais às vulneráveis transmissões por rádio.

As forças ucranianas conseguiram em fevereiro os seus maiores avanços territoriais internos em mais de dois anos depois de as tropas russas terem perdido o acesso ao Starlink, o serviço de Internet por satélite da SpaceX, empresa do magnata Elon Musk.

A mudança deu-se no mês passado, com a entrada em funcionamento de um novo sistema de “lista branca” que autoriza apenas terminais aprovados a ligarem-se à rede na Ucrânia.

O impacto fez-se notar de imediato na capacidade russa de coordenar drones, monitorizar o campo de batalha em tempo real e comunicar com unidades na linha da frente, sublinha o The Wall Street Journal.

Segundo a Ucrânia, desde então foram recuperados cerca de 390 quilómetros quadrados no sul do país, em particular nas regiões de Zaporíjia e Dnipropetrovsk, onde as forças russas estavam a avançar rapidamente.

Fevereiro foi o primeiro mês desde 2023 em que Kiev reconquistou mais território dentro da Ucrânia do que aquele que perdeu, de acordo com fontes do jornal norte-americano.

Mão de Musk na guerra

Os terminais da Starlink das forças ucranianas foram autorizados, enquanto aqueles que estavam a ser usados pelos russos não. Embora o Starlink não esteja oficialmente ativo na Rússia, as forças de Moscovo obtiam terminais através de intermediários, que os faziam chegar a partir de outros países.

Ao longo dos últimos anos, o sistema tornou-se essencial para ambos os lados.

Do lado russo, o Starlink era usado para ver transmissões em direto de drones, orientar movimentos no terreno e distribuir ordens de forma rápida e segura. Em postos de comando, oficiais acompanhavam imagens em tempo real do campo de batalha e reposicionavam meios conforme o que observavam. A ligação permitia uma coordenação quase instantânea com operadores de drones, que depois lançavam vagas de aparelhos de ataque contra posições ucranianas.

Quando essa capacidade foi interrompida, militares ucranianos relatam ter notado uma quebra abrupta no número de drones russos que os perseguiam após detetarem movimentos no terreno.

Aliás, a mudança surgiu “num momento crítico”. Diz ao WSJ um militar da unidade especial Timur, ligado à direção de informação militar da Ucrânia e identificado apenas pelo nome de guerra “Konosh”, que sem Starlink os russos ficaram “basicamente empurrados para comunicações da era da Guerra Fria”.

Oleksiy Serdiuk, comandante da unidade Brotherhood, da mesma formação lembra que antes bastava que os russos detetassem um grupo ucraniano ou até um único soldado para concentrarem rapidamente todos os meios disponíveis sobre esse alvo; agora, o intervalo entre a deteção e a resposta aumentou, criando janelas de oportunidade para fuga, reposicionamento ou ataque.

Serdiuk ilustra a nova realidade com um episódio ocorrido em fevereiro. Forças russas identificaram um grupo de soldados ucranianos dentro de uma casa e dois drones atingiram o edifício, mas não houve uma sequência imediata de novos ataques, como habitual. Segundo o comandante, os oficiais russos já não conseguiam transmitir tão depressa a localização a outros operadores de drones. O atraso deu aos militares ucranianos tempo suficiente para abandonarem o local e encontrarem nova posição.

A quebra nas comunicações também terá afetado outro tipo de meios, como drones terrestres e equipamentos dependentes de ligação contínua, e a capacidade de comando e controlo sobre a infantaria russa enfraqueceu.

Sem Starlink, a Rússia teve de recorrer muito mais a comunicações por rádio, que a Ucrânia conseguiu intercetar com maior facilidade. Um especialista em informações de sinais da unidade Timur disse ao WSJ que os ucranianos passaram a ouvir instruções diretas nas transmissões: movimentos previstos, localidades a ocupar e rotas a seguir, por vezes com um dia de antecedência.

Nas primeiras semanas após a perda russa do Starlink, a Ucrânia conseguiu empurrar as forças russas para longe dos arredores da cidade de Zaporíjia, capital regional, o que reduziu significativamente a ameaça de bombardeamentos de artilharia sobre a cidade.

Ao longo de toda a frente, no entanto, a Rússia mantém vantagem numérica (estimada em três para um em efetivos) e parte do território recuperado recentemente por Kiev corresponde sobretudo a campos abertos e pequenas localidades.

E Moscovo está a adaptar-se. Soldados ucranianos dizem que os russos começaram a passar cabos de comunicação entre posições, a recorrer a sistemas sem fios de menor alcance e a testar serviços de satélite russos e chineses. Há também tentativas para contornar a restrição através da inscrição fraudulenta de terminais Starlink na lista branca com ajuda de cidadãos ucranianos — os serviços de segurança da Ucrânia já detiveram duas pessoas no âmbito dessas operações.


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