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Muitas aves estão a usar cigarros para fazer ninhos por todo o mundo. Descobriram que servem de pesticida e que, consequentemente, tornam as crias mais saudáveis (mas podem provocar danos genéticos).
Algumas aves estão a adaptar-se à poluição humana de uma forma engenhosa mas certamente triste.
O jornal norte-americano The New York Times deu conta este mês do comportamento supostamente observado em várias partes do mundo que está a chocar os cientistas: o uso de beatas de cigarro, por parte de aves, na construção dos ninhos.
Segundo um estudo publicado na revista Animal Behaviour citado pelo jornal, aves de regiões tão distintas como as Galápagos, a Nova Zelândia e cidades da Europa e da América Latina têm incorporado restos de cigarros nos ninhos. Em alguns casos, chegam mesmo a instalar-se em cinzeiros.
Uma das explicações mais plausíveis para este comportamento foi avançada por investigadores na Polónia, que estudaram chapins-azuis, espécie comum em grande parte da Europa.
Os cientistas verificaram que as beatas parecem funcionar como uma espécie de pesticida improvisado: a nicotina e os metais pesados presentes nos filtros ajudam a afastar parasitas como pulgas e moscas.
Para testar a hipótese, os investigadores conduziram experiências controladas em laboratório. Compararam ninhos com beatas, ninhos sem tratamento e ninhos esterilizados. Os resultados não foram dramáticos, mas revelaram a tendência clara: os ninhos com beatas tinham ligeiramente menos parasitas do que os que não continham nicotina.
As análises ao sangue das crias mostraram também que tanto os ninhos com beatas como os esterilizados estavam associados a aves jovens mais saudáveis do que os ninhos não tratados. A conclusão aponta para que os parasitas possam ter um impacto importante nas primeiras fases do desenvolvimento das aves.
Outras equipas de investigação identificaram um comportamento mais sofisticado. Algumas espécies de aves parecem aumentar a quantidade de beatas nos ninhos quando detetam uma maior presença de parasitas. Na Cidade do México, tentilhões e pardais desfazem as beatas e espalham as fibras pelo ninho para uma proteção ainda mais eficaz.
Mas claro, a inovação tem um lado negro. Crias expostas diretamente à nicotina podem apresentar sinais de danos genéticos. Os efeitos a longo prazo ainda não são conhecidos, mas os investigadores alertam que a estratégia de sobrevivência pode ter um custo elevado e é mais um reflexo perturbador da forma como a vida selvagem se ajusta à poluição produzida pelos humanos.