Consegui ajudá-la a melhorar e isso também foi marcante. É muito significativo quando conseguimos ajudar alguém que está com muita dor a sentir-se melhor. Mas também é significativo e marcante quando sentimos que não estamos a conseguir, quando sentimos que a nossa resposta não está a ser suficiente. Devemos usar esse incómodo para nos questionarmos: por que não conseguimos? A avaliação foi bem-feita? A intervenção foi a adequada? O que é preciso mudar?

Este questionamento não pode ser apenas uma reflexão individual, tem de ser feito em equipa. A intervenção em dor implica várias valências: médico, fisioterapeuta, enfermeiro e, eventualmente, psicólogo. E a equipa tem de estar alinhada na estratégia. Então, claro que me incomoda se a pessoa não melhora, mas tenho, em primeiro lugar, de perceber se o que é necessário mudar é da minha competência ou se é da competência dos outros.

Os profissionais de saúde, muitas vezes, trabalham de forma isolada, muito sozinhos. Não há aí uma culpa individual, é o sistema que os leva a trabalhar assim. Em parte, por falta de tempo, cada um passa o dia a fazer as suas coisas e as pessoas acabam por construir muros muito altos em torno de si próprios e daquilo que fazem. O ideal seria que toda a gente baixasse um bocadinho esses muros, não para interferir nas competências dos outros, mas para cada um conseguir perceber o que o outro está a fazer, como se podem ajudar mutuamente e, assim, ajudar melhor o doente.

É curioso: quando fazemos o nosso currículo, pomos lá os nossos pergaminhos todos: a formação, a experiência profissional, os artigos publicados, os prémios científicos, mas há toda uma biografia invisível — quem nós somos, como pessoas — que nunca está lá. No entanto, isso é muito definidor do profissional que somos.

Penso, por exemplo, que uma das principais características de um bom fisioterapeuta é alguma humildade. Ter noção de tudo o que ainda não sabe e sentir disponibilidade para aprender mais. Quem se foca só nas competências que tem e julga que já sabe tudo, fica sem margem para aprender coisas novas. E elas surgem quase todos os dias. Então, eu até posso ter noção de que já sei umas coisas, mas não me posso deitar “à sombra da bananeira”. Não posso perder a noção de que há sempre mais para saber. É fundamental continuar a estudar e a fazer formação.