A escultura das “Três Graças” ocupa o centro de gravidade da atual novela das nove da Globo – que, não por acaso, tem como título justamente o nome deste trabalho. Originada em um mito grego, a representação dessas três figuras femininas em compasso de dança inspirou artistas em todo o mundo, sobretudo após o Renascimento, a partir do século XIV, quando passaram a ser um tema mais ou menos recorrente.
Lida como símbolo de uma idealizada harmonia – combinando atributos como alegria, elegância e jovialidade –, a história mitológica foi revisitada por diversas correntes artísticas, inclusive pelo modernismo brasileiro, inspirando obras de escultores como o belo-horizontino Alfredo Ceschiatti. É atribuído a ele um exemplar de “As Três Graças” em exposição na capital mineira desde meados de 2013. Uma obra que, a exemplo da versão da novela, é também cercada de mistério.
Em BH, a peça pode ser vista no hall de entrada do Minas Tênis Clube, no Lourdes, região Centro-Sul, onde chegou por meio de um antigo associado, membro de uma tradicional família minasclubista. Ele doou a escultura ao então presidente do equipamento há 13 anos, conforme registram os documentos consultados pelo Centro de Memória a pedido da reportagem. No termo de doação, porém, exigiu que seu nome fosse mantido em anonimato. Não há registros de cerimônias celebrando a chegada das Três Graças ao lugar ou mais detalhes sobre aquele trabalho – o que não é propriamente uma novidade em relação aos trabalhos do escultor mineiro.
Pesquisadora da obra legada por Ceschiatti, Gisele Guedes conta que o artista deixou poucos documentos que certificam que as esculturas foram feitas por ele – o que pode gerar questionamentos sobre a autoria, levantando a hipótese de que a obra possa ser uma cópia não autorizada ou uma réplica autorizada. Ela, no entanto, não indica que este seja o caso da escultura exposta no Minas Tênis Clube.
Escultura ‘As Três Graças’ chegou ao Minas Tênis Clube em 2013 | Crédito: Fred Magno/O TEMPO
A questão é que, diferentemente da história apresentada na novela, em algumas peças criadas por ele não há nenhum tipo de “assinatura secreta”. Para piorar, ela lembra não ser incomum que ele fizesse diferentes leituras para um mesmo tema.
Além da escultura exposta em BH, há uma versão da mesma obra fotografada em 1956 por Marcel Gautherot na Casa das Canoas, que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou e viveu por 10 anos, que fica na estrada das Canoas no Rio de Janeiro. Há também versões encontradas em casas de leilão. A reportagem identificou anúncios de uma peça em bronze patinado e cinzelado, medindo 110 x 80 cm, com cachet da Fundição Zani, sendo vendida com lances a partir de R$ 65 mil.
Como Ceschiatti fez releitura de mito grego
Na leitura da pesquisadora Gisele Guedes, a força de “As Três Graças”, na versão de Alfredo Ceschiatti, está justamente naquilo que escapa à individualização das figuras. “Essa questão de trabalhar as figuras femininas e, inclusive, temas mais tradicionais é comum na produção dele. Há vários exemplos em que ele trabalha com a forma feminina, mais sempre nessa direção de diluir ritmo, harmonia, não trabalhando com uma visualidade específica. Vide este caso, onde não temos uma obra sobre três figuras individuais, mas, sim, um conjunto, uma harmonia”, destaca.
Ela prossegue examinando que a escultura, mais do que representar personagens, tematiza as relações. “Ela não é uma cena, não é uma narrativa, não é um retrato, não é uma reprodução. Eu acredito que ela funciona como uma estrutura de relações. São os corpos, os volumes, o espaço, e essa dança entre elas que interessam”, defende.
Essa leitura, prossegue Gisele, é alegórica de como Ceschiatti vai se inserir no modernismo brasileiro. Ao estudar esculturas em Belo Horizonte, especialmente no recorte das décadas de 1940 e 1950, ela identifica nesse período uma transformação formal que aparece nas obras do artista. “Ele entra nesse período da passagem da década de 40 para a década de 50, que tem essa transição da modernidade, quando as formas mais clássicas estão sendo adaptadas, estão sendo mais simplificadas e geometrizadas”, examina.
É nesse ponto que, para ela, reside uma das chaves de sua relevância. “O que sempre me chamou atenção nele foi essa capacidade de lidar com temas tradicionais e trazer uma visão diferenciada, trazer um aspecto diferente e integrado com o tempo dele mesmo. Essa questão de trabalhar a forma na sua essência”, menciona, citando a recorrência de motivos clássicos – como o das Três Graças – não aparece na forma de simples repetição. “Ele é um artista que consegue pegar um tema tradicional, porque ‘As Três Graças’ é um tema mitológico, e, a partir dele, oferecer uma versão nova”, ressalta, elogiando a liberdade com que o escultor explora variações de um mesmo motivo.
Essa multiplicidade do seu trabalho, porém, acaba alimentando dúvidas – sobretudo quando associada à escassez de registros. E é justamente nesse ponto que a investigação encontra seus limites. “Isso é uma coisa que realmente é comum. Até no Museu de Arte da Pampulha (MAP), os registros das peças são muito breves. Às vezes a gente não tem nem informações de quem doou”, conta.
Para contornar essas lacunas, Gisele precisou recorrer a outras fontes durante sua pesquisa. “O que eu fiz foi buscar nos jornais, na Hemeroteca, no Arquivo da Cidade, para tentar encontrar dados sobre essas encomenda e doações”, diz, contextualizando que informações mais precisas só são encontradas no caso de obras vinculadas a projetos específicos, como o Conjunto Moderno da Pampulha – ele criou, por exemplo, esculturas para a Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Oscar Niemeyer. “Essas obras foram encomendadas para ficar lá, então existe uma demanda anterior, que é mais fácil de localizar”, menciona.
Na novela, obra é inspirada por escultura do século XIX
Na novela “Três Graças”, criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, com acertada direção de Luiz Henrique Rios, a escultura que dá nome à trama exerce uma força gravitacional que atrai diferentes núcleos e ganha contornos um quê sobrenaturais.
Escultura criada pela equipe de cenografia dos Estúdios Globo tem 1,8 m de altura e pesa 220 kg | Crédito: Estevam Avellar/Globo/Divulgação
Tratada como um objeto carregado de misticismo, a obra é associada a uma espécie de maldição: todos aqueles que a possuem acabam, em alguma medida, sofrendo perdas e revezes. É o que acontece com Rogério, personagem de Eduardo Moscovis, com Arminda, vivida por Grazi Massafera, e também com os grupos de Gerluce, de Sophie Charlotte, e Kasper, interpretado por Miguel Falabella.
Ao mesmo tempo, a peça exerce um fascínio persistente sobre praticamente todos os personagens, que passam a desejá-la obsessivamente ou simplesmente têm dificuldades de se afastar dela – que, discretamente, vai ocupando lugar central na narrativa.
Para dar forma a esse objeto de desejo, cenógrafos dos Estúdios Globo produziram uma escultura de cerca de 1,80 m, em resina com pó de mármore, inspirada em versões consagradas da história da arte. A referência mais célebre é a de Antonio Canova, um dos principais nomes do neoclassicismo. Sua primeira versão foi encomendada pela imperatriz dos franceses Joséphine de Beauharnais, esposa de Napoleão, que morreu antes da conclusão da obra, esculpida entre 1814 e 1817. Hoje, a peça integra o acervo do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. Outra versão do escultor está no Victoria and Albert Museum, em Londres.
Detalhe da escultura ‘As Três Graças’, de Antonio Canova, no Victoria and Albert Museum, em Londres | Crédito: Museu Victoria and Albert/Divulgação
O tema também foi retomado por outros artistas ao longo dos séculos. Há interpretações de James Pradier, expostas no Museu do Louvre, em Paris, na França; de Christian Gottfried Jüchtzer, no Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, na Alemanha; e de Bertel Thorvaldsen, no Museu Thorvaldsens, em Copenhague, na Dinamarca. Em comum, todas partem de uma mesma matriz mitológica, que atravessa séculos de história da arte.
Como explica o personagem Kasper na própria novela, a escultura remete às três filhas de Zeus: Eufrosina, associada à alegria; Aglaia, ligada à graça e à elegância; e Thalia, vinculada à juventude e à beleza.
Habitantes do Olimpo e descritas como dançarinas, elas aparecem de forma pontual na mitologia grega, mas ganharam projeção sobretudo a partir do Renascimento, quando passaram a ser interpretadas como símbolo de harmonia e de uma idealização do corpo e das relações humanas.