O selo internacional que certifica a Meseta Ibérica, o Gerês/Xurés e o Tejo/Tajo como Reservas da Biosfera pode vir a estar em risco — não por falta de natureza preservada, mas por insuficiência das práticas sustentáveis implementadas por hotéis e restaurantes que operam dentro destas áreas classificadas.

Um novo estudo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) revela que a sustentabilidade do território continua a depender essencialmente de medidas de baixo custo, deixando para trás intervenções estruturais imprescindíveis para garantir o estatuto concedido pela UNESCO.

“O estatuto de Reserva da Biosfera não depende apenas da natureza preservada; depende do que fazem diariamente hotéis e restaurantes”, afirma Maria Cunha, investigadora do ISMT, em Coimbra. “Se as actividades económicas aplicam apenas medidas básicas, o território pode deixar de cumprir a função para que foi classificado”, alerta.




Parque Natural do Douro Internacional faz parte da Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica, reconhecida pela UNESCO.
Nelson Garrido

“Numa Reserva da Biosfera, o estatuto assenta no cumprimento permanente de critérios internacionais: a classificação não depende apenas do estado da natureza, mas também do funcionamento da economia local”, sublinha a investigadora e docente do ISMT.

Investimentos estruturais são excepção

O estudo Práticas sustentáveis em microempresas do sector hoteleiro ibérico incluiu 30 microempresas de alojamento e restauração nas três reservas transfronteiriças — Meseta Ibérica, Gerês e Tejo. No total, foram analisados 14 hotéis e 16 restaurantes, maioritariamente com equipas entre quatro e seis trabalhadores. A investigação incidiu sobre quatro dimensões do funcionamento diário: eficiência energética, uso da água, gestão de resíduos e compras sustentáveis.

De acordo com o comunicado, estas empresas aplicam “sobretudo medidas simples e de baixo custo, como a separação de resíduos e a poupança de água”, mas avançam “muito raramente” para estratégias mais robustas, como energias renováveis ou a reorganização interna de processos.

No artigo científico publicado na revista Interações, os autores defendem que “estratégias intensivas em capital, como sistemas de energia solar e design interior sustentável, são raramente adoptadas”. O sector é dominado por microempresas, muitas com apenas quatro a seis trabalhadores, o que condiciona a capacidade de investimento, explicam.




A área da Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés engloba o rio Laboreiro e a região de Castro Laboreiro
Adriano Miranda

Maria Cunha confirma esse padrão: “Identificámos sobretudo lacunas em medidas que exigem um investimento inicial mais elevado ou mudanças estruturais na gestão das empresas. As energias renováveis e outras medidas de gestão mais robustas são pouco comuns.”

Sustentabilidade, mas não só como slogan

A distância entre intenção e prática é uma das conclusões mais consistentes desta investigação. Segundo o comunicado, falta agir: empresários e trabalhadores dizem valorizar a sustentabilidade, mas não conseguem integrá-la plenamente no funcionamento diário. O artigo científico acrescenta que os funcionários revelam “elevados níveis de consciência e forte apoio à sustentabilidade”, enquanto os clientes observam estas práticas apenas “com frequência moderada”.

Ao Azul, Maria Cunha acrescenta: “Os colaboradores indicam que muitas práticas sustentáveis estão presentes, mas os clientes referem que apenas as observam ocasionalmente. Isso sugere que a comunicação das iniciativas ambientais nem sempre é clara ou sistemática”. A investigação mostra que, embora exista consciência ambiental e reconhecimento da importância do estatuto, a sustentabilidade permanece numa espécie de limbo operacional: assume-se como valor, mas não se traduz em mudança estrutural.

Numa Reserva da Biosfera, o estatuto assenta no cumprimento permanente de critérios internacionais: a classificação não depende apenas do estado da natureza, mas também do funcionamento da economia local.



Maria Cunha, investigadora



O artigo científico recorda que este cenário é coerente com a literatura internacional sobre microempresas do sector, onde “a adopção de tecnologias amigas do ambiente permanece desigual” e muitas vezes limitada por “constrangimentos financeiros, limitações de capital humano e desafios de infra-estrutura”. No caso das Reservas da Biosfera ibéricas, este desfasamento pode ser determinante. Como conclui Maria Cunha: “Pode existir paisagem preservada, mas o modelo deixa de ser considerado sustentável.”

A promessa de sustentabilidade é parte integrante da marca “Reserva da Biosfera”, mas nem sempre corresponde à experiência do visitante. “Se o visitante não reconhece diferença entre território classificado e não classificado, a designação perde significado e utilidade”, alerta Maria Cunha. A investigadora sublinha que, mesmo quando as práticas existem, podem não gerar valorização económica: “O desafio está em comunicar melhor esse valor aos clientes, mostrando que a sustentabilidade não é apenas um custo.”

Fiscalização: multas ou incentivos?

As Reservas da Biosfera integram o programa “Man and the Biosphere” (MaB) da UNESCO e são avaliadas através de revisões periódicas internacionais, realizadas de dez em dez anos. A verificação incide principalmente sobre o estado ecológico do território (habitats, água e paisagem), “enquanto o funcionamento quotidiano das actividades económicas é acompanhado de forma muito menos sistemática pelas entidades nacionais e regionais”, refere o comunicado do ISMT.

A classificação “funciona também como selo internacional de confiança ambiental e influencia directamente a atractividade turística”, sendo que, “quando a experiência do visitante não corresponde à promessa de sustentabilidade, o valor associado ao destino diminui”.

“O que acontece é que, quando as práticas ambientais são limitadas ou pouco sistemáticas, a pressão sobre os recursos naturais pode aumentar ao longo do tempo”, esclarece Maria Cunha. A investigadora defende avaliações mais frequentes: “A monitorização deve ser contínua e periódica, e avaliações anuais ou bianuais seriam convenientes.”

Maria Cunha rejeita que a solução passe essencialmente por punição: “A aplicação de sanções pode desempenhar um papel, mas o caminho mais eficaz passa por incentivos, formação e apoio técnico às empresas.” A correcção das lacunas “não depende de novas regras, mas da aplicação efectiva das existentes”, incluindo apoio técnico, incentivos financeiros e formação. com Lusa